Taxa de suicídio cresce 47,7% no RS em menos de uma década e atinge o maior índice da série histórica

Passo Fundo aparece com taxa de 17,2 por 100 mil habitantes na região da 6ª Coordenadoria Regional de Saúde, com sede em Passo Fundo, aparece com taxa 17,2 por 100 mil habitantes

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Passo Fundo aparece com taxa de 17,2 por 100 mil habitantes - Foto: Agência Brasil/DivulgaçãoPasso Fundo aparece com taxa de 17,2 por 100 mil habitantes - Foto: Agência Brasil/Divulgação
Passo Fundo aparece com taxa de 17,2 por 100 mil habitantes - Foto: Agência Brasil/Divulgação
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O Rio Grande do Sul, historicamente conhecido por liderar as estatísticas nacionais de suicídio, voltou a apresentar números preocupantes. O novo Boletim Epidemiológico da Secretaria Estadual da Saúde (SES), divulgado na última terça-feira (23), aponta que, entre 2015 e 2023, a taxa de mortalidade por suicídio no Estado cresceu 47,7%, passando de 10,88 para 16,07 óbitos por 100 mil habitantes — o maior valor já registrado na série histórica.

Em 2024, foram contabilizadas 1.528 mortes por suicídio. O número, embora represente uma leve queda em relação ao ano anterior, mantém o Estado na liderança nacional do indicador, com uma taxa parcial de 14,87 por 100 mil habitantes, quase o dobro da média brasileira, que foi de 8,6 óbitos por 100 mil habitantes em 2023.

Homens e idosos concentram as maiores taxas

O levantamento reforça um padrão já conhecido. Cerca de 80% das mortes em 2024 ocorreram entre homens. As mulheres, embora apresentem taxas menores de óbito, registram maior frequência de ideação e tentativas de suicídio, em um fenômeno descrito pelos pesquisadores como "paradoxo de gênero".

Entre os homens, a taxa cresce conforme o avanço da idade, alcançando o patamar mais crítico entre aqueles com 80 anos ou mais: 49,69 óbitos por 100 mil habitantes. Já entre as mulheres, o risco é maior na faixa dos 60 aos 69 anos, com 8,35 por 100 mil, mas cai nas idades mais avançadas. Especialistas apontam que fatores como perda de autonomia, doenças incapacitantes, interrupção da vida laboral e sensação de inutilidade estão entre os gatilhos que agravam o sofrimento psíquico de idosos, especialmente do sexo masculino.

Diferenças regionais

A mortalidade por suicídio apresenta desigualdades marcantes no território gaúcho. Em 2024, as maiores taxas foram registradas nas regiões de Cruz Alta (26,4 por 100 mil), Santa Cruz do Sul (23,88), Ijuí (23,69) e Frederico Westphalen (23,57).

A 6ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), com sede em Passo Fundo, registrou 107 óbitos, com uma taxa de 17,2 por 100 mil habitantes — acima da média estadual, mas distante dos picos observados em outras regiões.

Entre os municípios com mais de 50 mil habitantes, Passo Fundo não aparece na lista das 20 cidades com maiores índices proporcionais. O ranking é liderado por Venâncio Aires (33,81), São Borja (23,16), Sapiranga (22,56) e Ijuí (22,56). Na outra ponta, grandes centros como Porto Alegre e Caxias do Sul registraram taxas menores, embora concentrem números absolutos elevados de mortes.

Problema se agravou na última década

De 2015 a 2024, o Estado contabilizou mais de 16 mil suicídios. O crescimento mais acentuado ocorreu entre 2018 e 2019, quando a taxa saltou 14,4%.

O boletim também destaca que as enchentes de setembro de 2023 e de abril/maio de 2024 não provocaram um aumento imediato nos índices. Técnicos alertam, porém, que os efeitos emocionais de desastres ambientais nem sempre aparecem de forma imediata, podendo desencadear consequências graves a médio e longo prazo, como depressão, abuso de substâncias e comportamentos autolesivos.

Sinal de alerta

Além das mortes confirmadas, o boletim registrou 11.324 notificações de lesão autoprovocada em 2024, que incluem tentativas de suicídio e automutilações. Quase 70% dessas notificações ocorreram entre mulheres, especialmente adolescentes de 15 a 19 anos, faixa etária que apresentou índices alarmantes: 471,79 casos por 100 mil entre meninas e 162,69 entre meninos.

Outro dado preocupante é que metade das ocorrências era reincidente, ou seja, envolvia pessoas que já haviam apresentado comportamento suicida antes. Segundo especialistas, esse é o principal fator de risco para um óbito futuro.

O suicídio é um fenômeno multifatorial, influenciado por aspectos biológicos, psicológicos, sociais e econômicos. No RS, o desafio é ainda maior diante de fatores como o estigma em torno do sofrimento psíquico, a masculinidade tóxica, o preconceito contra a população LGBTQIA+, a violência contra mulheres, o abuso sexual e a negligência com idosos.

Por isso, o boletim reforça que a prevenção não pode se restringir ao Setembro Amarelo. É necessário integrar, de forma permanente, ações nas áreas de saúde, educação e assistência social, além de fortalecer a atenção primária para identificar sinais de risco precocemente.

Passo Fundo diante do cenário

Embora não figure entre os municípios com as maiores taxas, Passo Fundo integra uma região que somou mais de uma centena de mortes em 2024. A taxa de 17,2 por 100 mil habitantes reforça a necessidade de ações locais consistentes.

Conforme a chefe do Núcleo de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, Valéria Pereira, setembro é um marco para refletir sobre a importância da valorização da vida, mas o cuidado deve ser diário. “Nosso compromisso é garantir que toda pessoa em sofrimento psíquico tenha acesso à escuta qualificada, ao acompanhamento adequado e, quando necessário, à continuidade do cuidado por equipes especializadas. O sofrimento psíquico nem sempre é visível, mas pode ser tão incapacitante quanto uma doença física. Procurar ajuda é fundamental, e acolher salva vidas”, ressalta Valéria.

A chefe ressalta que o município vem estruturando e qualificando sua Linha de Cuidado em Saúde Mental, assegurando atendimento integral e humanizado em todos os níveis do Sistema Único de Saúde (SUS). “Na Atenção Primária, todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS), Estratégias de Saúde da Família (ESF) e ambulatórios municipais oferecem acolhimento aberto em saúde mental, com psicólogos e equipes preparadas para a escuta ativa.”

Já na Atenção Especializada, Valéria frisa que a rede dispõe de três Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), divididos por categorias:

  • CAPS II, voltado a adultos com transtornos mentais severos e persistentes;
  • CAPS AD, para pessoas com sofrimento psíquico relacionado ao uso abusivo de álcool e drogas;
  • CAPS Infantojuvenil (CAPSi), destinado a crianças e adolescentes com dificuldades emocionais e comportamentais.

“Todos contam com equipes multiprofissionais e atendimento contínuo, além de acesso a consultas de psicologia e psiquiatria via Teleagendamento e leitos hospitalares regulados pelo SUS, quando necessário. Em caso de sofrimento emocional, a população pode buscar ajuda gratuita e sigilosa”, finaliza Valéria.

Número de óbitos e taxa de mortalidade por suicídio nos 20 municípios do RS com as maiores taxas parciais em 2024 entre municípios com mais de 50 mil habitantes (Município: Número de óbitos / Taxa)

  • Venâncio Aires: 22 / 33,81
  • São Borja: 13/ 23,16
  • Sapiranga: 16 / 22,56
  • Ijuí: 18 / 22,56
  • Farroupilha: 13 / 19,61
  • Santa Cruz do Sul: 24 / 19,04
  • Cruz Alta: 10 / 18,10
  • Santa Rosa: 13 / 18,00
  • Santo Ângelo: 13 / 17,99
  • Rio Grande: 32 / 17,69
  • Lajeado: 15 / 17,10
  • Bento Gonçalves: 17 / 14,63
  • Bagé: 16 / 14,42
  • Carazinho: 8 / 13,79
  • Alvorada: 24 / 13,68
  • Pelotas: 42 / 13,63
  • Campo Bom: 8 / 13,50
  • Montenegro: 8 / 13,23
  • Santa Maria: 33 / 12,84
  • Caxias do Sul: 56 / 12,78
  • Média do RS: 1.528 / 14,87
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