OPINIÃO

Superar preconceitos

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A atitude concreta tomada pelo padre Júlio Lancelotti, que empunhou a marreta para destruir a obra arquitetônica debaixo dos viadutos, feitas para impedir a presença de miseráveis perdidos pelo desabrigo é mais que um simbolismo contra a indiferença. Também não é mero gesto insólito. Mexe com o antagonismo de freses acatadas durante a pandemia proclamando surgimento de ações solidárias. É lógico que todo esse sentimento de solidariedade ecoou justo pela mídia e redes sociais. A ajuda de empresas e pessoas que se movem em socorro aos desempregados ou que necessitam de alimento. Essa legião de miseráveis existe como espectro social mesmo antes da pandemia. Lancelotti enfatiza que são pessoas, vidas, que estão por aí, no abismo da sobrevivência, abrigados por um banco de praça, ou o vazio de um túnel. A moderna engenharia de governos acata construção de obstáculos a quem se serve de uma cama improvisada sobre papelão esperando amanhecer vivo. Pessoas de bem aplaudem a aplicação dos cones de cimento em simetria debaixo do viaduto. O julgamento ao triste destino dos miseráveis é facilmente apoiado em constatações que remetem ao sumário veredito social de que são eles os culpados. Não trabalham, bebem, pouco se expressam, são dolentes e com aparência horrível. Acontece que esse julgamento não é suficiente para eximir a sociedade como estado em suas obrigações sociais ou como coletividade humana. O juízo parece justificar o abandono e repulsa a esta miséria. A compaixão termina com a acomodação da consciência na falsa eliminação presencial dos mendigos e andantes perdidos nos pontos de maior concentração. Os preconceitos sobre a miséria pulsante são deletados com as linhas simétricas dos tachões de cimento. O tratamento alija os sobreviventes do sonho cotidiano em encontrar um chão para dormir. Há muito tempo é tolerada a vida ambulante de cães e gatos sem dono nos cantos das praças agindo comovidos para curá-los a abriga-los melhor. Nada contra os gestos de salvação à vida animal, mas esses mendigos rodando são vidas, vidas humanas. E podem ser acolhidas pelo gesto de todos. Oprimi-los mais, é alimentar o caos. Não é nada justo criar mais abismo mediante ações de condenação impossível.

 

Obstáculos

Parece que a onda alucinada de negacionismo em relação à pandemia do Covid perde força diante da realidade. São mais de 230 mil mortos e milhões de afetados pela doença no Brasil. O perigo de contaminação e o número de mortos entre profissionais da saúde não diminuiu. Nosso território imenso foi assolado pela pérfida maldade dos que optaram pelo desprezo às cautelas recomendadas pela ciência médica. Na escala de desvios de conduta estão os que agiram por ignorância, outros pelo inconsequente fundamentalismo das metas supérfluas. A honra de médicos, sanitaristas e respeitável trabalho do jornalismo sério felizmente ganha fôlego.

 

Vacina

Com todas as dificuldades, a importância da vacina contra a pandemia supera terríveis enganos semeados, até intencionalmente. Um dos exemplos é o esclarecimento sobre medicações, como Invermectina, cloroquina ou azitromicina, que têm função histórica na saúde, mas sem eficácia contra o Covid. Começam a aparecer casos, possivelmente sem recomendação médica, de agravamento de doenças cardíacas, hepatite, pancreatite e outras consequências pelo uso desesperado de remédios inadequados para combater a pandemia. O Palácio do Planalto certamente sabia do perigo dos tratamentos duvidosos, mas insistiu vertiginosamente nesta tecla perigosa da saúde pública.

Hoje é reconhecida a vacina em meio a incertezas de gestão, para aplicação em massa. O Brasil vai vencendo a própria letargia e a falta de competência, como a catástrofe de Manaus e Roraima, para salvar vidas, com mais oxigênio e vacinas. Já não se fala mais em repelir a Coronavac, admitindo-se também a Sputnik, importantes no rol desta esperada salvação de nossa gente. Variantes e mutações do vírus também estão na mira dos cientistas da saúde. Outra circunstância é a retomada do investimento na ciência brasileira, buscando mais autonomia na produção de vacina.  


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