OPINIÃO

Eugênio e Egídio

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Eram tempos que padres, bispos, cardeais, papas e, possivelmente, eles próprios, ainda acreditavam em Deus, quando Eugênio Giovenardi e Egídio Ferronatto se conheceram, em meio a mais de duas centenas de meninos, no Seminário Seráfico da Ordem dos Frades Capuchinhos, em Veranópolis (atualmente em Vila Flores), nos anos 1940. Tempos que no seio das famílias dos imigrantes italianos da Serra Gaúcha, com proles numerosas, era uma dádiva ter um filho ou uma filha, quando não mais de um ou de uma, seguindo ao chamado de Deus. Na verdade, as escolhas eram poucas. Ou a árdua lida de trabalho na roça ou estudar nos seminários de confissão católica, que, diferente dos tempos atuais, quando escasseiam as vocações, abundava a oferta de “vocacionados”, que, assim, podiam ser “escolhidos a dedo” pelos dirigentes das ordens e congregações religiosas.

De Veranópolis, Eugênio e Egídio seguiram a trilha dos capuchinhos no Rio Grande do Sul, com passagens por Vila Ipê, Flores da Cunha, Ijuí, Marau, Garibaldi e Porto Alegre, cumprindo programa de estudos de humanidades, filosofia e teologia. Na Capital do Estado, nos anos 1950/1960, tomariam rumos diferentes, enquanto Eugênio foi cursar Ciências Sociais na UFRGS, Egídio foi para Lagoa Vermelha, para atuar como professor no Ginásio Duque de Caxias. Nesta cidade, formou-se em Contabilidade e foi professor e diretor da Escola Técnica de Comércio. Também pode dar vazão à sua paixão pelas letras, atuando como redator-chefe do Semanário ECO LAGOENSE, que era vinculado à ordem dos capuchinhos, sob o pseudônimo M. Chaves.

Há que se destacar, entre “os vocacionados” do passado, eram poucos os que seguiam adiante, fazendo os votos solenes de obediência, pobreza e castidade. Nesse particular, reconheça-se a importância dos seminários para a formação de recursos humanos para a Educação. Uma boa parte desses, ao deixar os seminários, se dedicava ao magistério. Foi o que aconteceu com Eugênio e com Egídio, que, trilhando caminhos diferentes, retomariam a amizade 50 anos depois.

Egídio Ferronato, em 1967, licenciou-se da congregação dos capuchinhos e veio para Passo Fundo. Foi contratado como professor do Estado e matriculou-se no Curso de Letras da Faculdade de Ciências e Letras do Consórcio Universitário Católico, que era mantido pela Diocese de Passo Fundo. Em maio de 1968 foi convidado para assumir a Secretária Geral da recém-criada Fundação Universidade de Passo Fundo. Em 1970, por ter trabalhado no processo de criação do curso, assumiu a função de secretário da novel Faculdade de Medicina, posto que permaneceria até a aposentadoria, em 2003. Foi, pela competência e características humanas singulares, considerado secretário exemplar, unanimemente reconhecido em placa que recebeu quando da sua saída da Universidade. E, destaque-se, também colaborou na formatação do projeto que viabilizou a residência médica do Hospital da Cidade (atual HC).

Egídio cumpriu o desiderato popular do que se espera para um homem. O clássico, pelo menos, ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Casou, em 1975, com a colega e bibliotecária Inez Fátima e tiveram três filhos (um médico, um advogado e um cirurgião dentista). Cultivou pinheiros no seu sítio nas margens da Barragem do Capingui e, passados 30 anos, está podendo comer os frutos das árvores que plantou. E, em 1994, pelo selo da Casa Editorial Armando Araújo Annes (leia-se Jorge Alberto Salton), publicou o livro “O Tesouro do Barão”, contando a saga de uma extinta sociedade local de caçadores de tesouros, da qual ele fez parte. Também, sob pseudônimo (Sebastião Cruz) ou assinando o próprio nome, publicou diversos artigos nos jornais O NACIONAL, Diário da Manhã e Correio do Povo. Chegou a ser escolhido para os quadros da Academia Passo-Fundense de Letras, mas não tomou posse.

Eugênio Giovenardi, por desavenças com Dom Vicente Scherer, foi instado a deixar a Diocese de Porto Alegre. Depois de passagens pela França, estudando na Universidade de Paris, 1967 a 1969; Portugal e Inglaterra, 1969 a 1972, radicou-se, nesse último ano, em Brasília. Trabalhou no Banco Nacional de Crédito Cooperativo. Foi consultor da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e de outras agências da ONU na área de programas de combate à pobreza, de educação e promoção de organizações rurais, na América Latina, com atuação destacada na Colômbia. É casado com a jornalista e tradutora finlandesa Hilkka Mäki. Tem uma filha, Aino Alexandra, e duas netas, Luiza e Laura. Nas proximidades de Brasília, mantém o Sítio das Neves, instituído como Reserva Perpétua do Território Nacional. E escreveu, além de centenas de artigos, 28 livros.

Sobre o ecossociólogo Eugênio Giovenardi e sua obra em defesa da causa ambiental trataremos, especificamente, na próxima coluna. Em destaque o livro “Os Fugitivos da Água”, de 2025, uma distopia, que, fazendo jus à antiga relação de amizade, Egídio Ferronatto pode ser, facilmente, identificado como personagem da história escrita por Giovenardi.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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