Um dia antes das rodadas de negociação por um cessar-fogo entre Ucrânia e Rússia, realizadas em Istambul, na Turquia, Zelensky promoveu um dos ataques mais audaciosos contra a Rússia, por meio da operação intitulada Spider’s Web. Um “enxame” de drones (swarm) atingiu diversas bases aéreas russas na Sibéria, danificando mais de 30% da frota de bombardeiros nucleares do Kremlin. A manobra levou cerca de um ano e meio para ser articulada e teve, como fato curioso, o possível apoio logístico dentro do território russo – relativamente próximo a uma unidade do FSB, o serviço de inteligência herdado da antiga KGB. Esse episódio levanta três questões relevantes para o cenário da guerra: 1) a indisposição de Zelensky em aceitar um cessar-fogo e a consequente escalada do conflito; 2) a reação ainda incerta (e perigosa) de Putin; 3) o papel da tecnologia e o uso de drones como marcos de uma nova era nos conflitos armados.
Jogo perigoso
Zelensky nunca apresentou um plano concreto de paz. No fim do ano passado, lançou a sua proposta de vitória, que incluía a entrada da Ucrânia na OTAN e na União Europeia, além do destacamento de forças militares estrangeiras em território ucraniano. O aspecto mais intrigante da operação com drones é seu timing: por que realizá-la exatamente um dia antes da abertura das negociações pelo cessar-fogo? Teria Zelensky desejado demonstrar que ainda possui capacidade de debilitar a Rússia – especialmente com o apoio do Ocidente? Talvez. Foi uma aposta alta, que mudou o jogo de forma perigosa, inclusive para os seus aliados. Não teria sido mais prudente aguardar os primeiros sinais da negociação? As delegações chegaram a Istambul sem qualquer perspectiva real de avanço. Naturalmente, a operação aumentou a tensão. Putin prometeu uma resposta enérgica. Zelensky, por sua vez, pareceu querer forçar eventuais intervenções militares por parte de seus aliados europeus, dependendo da intensidade da reação russa.
O enigma dentro de um mistério
Enquanto esta coluna era finalizada, Putin já havia ordenado novos ataques aéreos contra regiões da Ucrânia, com mortes de civis. Uma recente ligação telefônica entre os líderes de Washington e Moscou, com mais de uma hora de duração, não resultou em avanços concretos rumo a um cessar-fogo. A conversa serviu basicamente para que Putin anunciasse possíveis retaliações em função da destruição dos bombardeiros.
A resposta pode vir com a intensificação dos bombardeios, o uso de tecnologias de difícil detecção por radares ucranianos – como os mísseis Oreshnik, capazes de causar grandes danos a infraestruturas básicas e até mesmo a alvos civis. Em tom ameaçador, Putin afirmou que Zelensky teria interferido na política nuclear russa. Alguns aliados do Kremlin chegaram a sugerir uma resposta com armas nucleares táticas.
A “democratização” da guerra
A operação ucraniana revela muito sobre o futuro dos conflitos armados. Estamos entrando na era da “precisão em massa”, combinando inteligência artificial, tecnologia e automação no desenvolvimento de armamentos autônomos – o que transformará os campos de batalha. O baixo custo dessas operações também “democratiza” o acesso à guerra, ampliando o leque de atores: de Estados a grupos terroristas.

