OPINIÃO

A hora da contação de histórias

Por
· 3 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?
A- A+


Assim como há quem acredite, piamente, mesmo sendo uma lenda, que não havia neblina em Londres antes de Whistler começar a pintá-la nos seus “noturnos”, conforme assertiva que se atribui a Oscar Wilde, eu tomo a liberdade, poeticamente, de afirmar que também não havia contação de histórias em Passo Fundo antes do surgimento do Bando de Letras. Ambas, evidentemente, são falsas. Tanto havia neblina em Londres, antes das pinturas de Whistler, quanto contação de histórias, uma arte milenar, em Passo Fundo, antes do Bando de Letras. Talvez, o que não havia, fosse a percepção pública, do fog londrino e dessa manifestação artística em Passo Fundo, como tais.

O Bando de Letras, para quem não conhece a origem, foi um famoso grupo de contadores de histórias e “dizedores” de poemas que surgiu, em 1996, na Universidade de Passo Fundo (UPF). Havia começado mais como uma demonstração de rebeldia de um grupo de alunos contra o modelo tradicional das aulas de Língua Portuguesa e Literatura do que qualquer outra coisa. Inclusive, no começo, não foi bem-visto por alguns professores e nem pelos demais colegas. No entanto, supostamente, pela relevância que tomou, acabaria sendo institucionalizado como um projeto de extensão universitária, em 2012, pela UPF. Com o tempo, o projeto, sob a denominação de “Bando e Bandinho de Letras”, foi estendido para além dos limites do curso de Letras da UPF, englobado alunos do Ensino Médio Integrado e da Faculdade de Medicina; e, no caso do “Bandinho”, para as crianças de oito a doze anos das redes pública e privada de ensino de Passo Fundo.

Os fundadores do Bando Letras foram os acadêmicos Clodoaldo Silva (in memoriam), Douglas Peretto, Roberta Ciocari e Roberta Salinet. E, paralelamente, acompanhando de perto e orientando esse trabalho, desde o começo, de maneira discreta como costuma ser o comportamento dos verdadeiros mestres, houve a figura onipresente e singular do Prof. Eládio Vilmar Weschenfelder. Historicamente, o Bando de Letras e o Prof. Eládio, com o passar do tempo, tornar-se-iam duas entidades indissociáveis. Tanto é assim que a antologia de contos e poemas, que marcou a estreia do grupo Bando de Letras em livro, materializada na obra “Beijo Definitivo”, publicada em 1997 pela editora da UPF, teve como organizadores Eládio Vilmar Weschenfelder e Douglas Peretto.

A contação de histórias em Passo Fundo voltou ao debate público essa semana, quando, na última quarta-feira (11/06/2025) a Câmara de Vereadores aprovou, por unanimidade, o Projeto de Lei, apresentado pelo vereador Douglas Peretto, que instituiu a “Semana Municipal do Contador de Histórias” em Passo Fundo, a ser celebrada entre os dias 20, que é dedicado aos contadores de histórias no mundo, e 27 de março, todos os anos. O projeto segue para a sanção do Executivo, que, pelas raízes artísticas do senhor prefeito Pedro Almeida, não se esperam óbices ou, pelo menos, óbices impeditivos.

A proposta de Lei visou ao reconhecimento da importância dessa arte milenar, que vai muito além do entretenimento, pois contar história, incontestavelmente, também é educar, preservar tradições, fortalecer vínculos e incentivar a leitura. Durante a semana, prevê a Lei, serão promovidos eventos de contações em escolas, bibliotecas, hospitais e espaços culturais, além de oficinas, debates, apresentações e ações comunitárias. É a valorização dos contadores e contadoras — profissionais ou voluntários — que dedicam tempo, talento e afeto para manter viva a oralidade, justificou o vereador Douglas Peretto, proponente da inciativa.

E como tudo tem a sua origem, registre-se, para os anais da História, que a ideia dessa “Semana Municipal do Contador de Histórias” foi, incialmente, gestada por Gabriel Cavalheiro Tonin (o Gabito), membro da Academia Brasileira de Contadores de História, e Vanessa Hickman, a coordenadora da Biblioteca Pública Municipal de Passo Fundo. Gabito e Vanessa tiveram a felicidade de semear em terreno fértil, ao levar a ideia ao vereador Douglas Peretto, que, pelas raízes no Bando de Letras, de imediato, abraçou a causa. Nossos aplausos aos edis passo-fundenses!

Há que se reconhecer a presença marcante dos contadores de histórias em Passo Fundo. Muitos, inclusive, fazendo, dessa arte milenar, profissão. Destacam-se, na cena local contemporânea da contação de histórias, nomes como Gabriel Tonin (Gabito), Luciana Albrecht, Vanessa Hickman, Cássio Borges, Patrícia de Bairos, Marcos de Andrade, Eládio Weschenfelder, Paulinho Cantalê, Giancarlo Rotta de Camargo, Miraldi Junior, Mara Cavalheiro, Pablo Morenno e outros mais, aos quais antecipo pedido de desculpas pela omissão involuntária.

A Capital Nacional da Literatura precisa renovar seus compromissos com a Cultura. Oxalá a aprovação dessa Lei possa significar uma retomada do que outrora, nos áureos tempos das Jornadas Literárias, fomos!

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

Gostou? Compartilhe