O escritor Arthur C. Clarke é um ícone da ficção científica. Nasceu na Inglaterra em 1917, serviu na Royal Air Force durante a Segunda Guerra Mundial, estudou física e matemática no King's College de Londres e, apaixonado por fotografia e exploração submarina, desde 1956, passou a residir no Sri Lanka (antigo Ceilão); onde permaneceu até a sua morte em 18 de março de 2008. Ficou famoso pelos livros de ficção científica, principalmente por dois deles levados ao cinema (títulos dos filmes): “2001- Uma Odisséia no Espaço”, dirigido por Stanley Kubrick (1968), e “2010 - O ano em que faremos contato”, dirigido por Peter Hyams (1984). Fora do segmento ficção, destaca-se o livro “Profiles of the Future: An Inquiry into the Limits of the Possible” (Perfil do Futuro, edição brasileira pela Vozes), de 1962. Neste último, podem ser encontradas as convencionalmente chamas “Leis” de Clarke. São elas: (1) Quando um cientista distinto (renomado) e experiente (de mais idade) diz que algo é possível, ele está, quase certamente, certo. Quando ele diz que algo é impossível, ele está, muito provavelmente, errado; (2) O único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se além dele, através do impossível; e (3) Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. Discutir as leis de Clarke no contexto da sociologia e da filosofia da ciência é objetivo dessas notas.
Podemos começar pelo entendimento de como funciona a ciência e sua comunidade de cientistas. Em geral, divide-se o mundo científico em duas escolas de pensamento (há mais). A escola normativa, que tem Karl Popper como seu expoente maior, que recomenda o norte metodológico para a condução de pesquisa científica, e a escola descritiva, capitaneada por Thomas Kuhn, que procura mostrar como a ciência é de fato produzida.
Quando se fala em comunidade científica, efetivamente, se faz referência a um grupo portador de uma cultura (ou subcultura, em alguns casos) particular, formando, não raro, um agrupamento fechado. Indivíduos que compartilham crenças, valores, técnicas, etc. e também preconceitos. É comum este tipo de comunidade formar os tais “colégios invisíveis”. Ou seja, cientistas localizados em diferentes organizações, até diferentes países, que compartilham informações e os mesmo paradigmas. Atuam como senhores da ciência normal, determinando as regras e padrões para a prática científica. Surgem as eminências e o “paradigmatismo” no processo da construção da ciência. E isto está implícito na primeira lei de Clarke, quando se refere a estrutura normativa da prática científica e de seus imperativos morais, chamados de ethos científico. Não há como negar que existem paradigmas e que os cientistas, especialmente os experimentais impregnados de determinismo, resistem a mudanças, demonstrando, muitas vezes, uma prática não-científica, na interpretação de Popper, por uma completa ausência de espírito crítico.
A “ciência normal” é aquela desenvolvida dentro do paradigma dominante. Entende-se (e se aceita) por ciência normal a pesquisa baseada em uma ou mais realizações do passado. São essas realizações que dão os fundamentos para a prática posterior. Essa “ciência normal” não leva a grandes inovações, pois os resultados a que se quer chegar, quase sempre, já estão definidos antes do início da pesquisa. Só faz aumentar ainda mais a clareza e a confirmação do paradigma adotado.
Grandes mudanças e inovações radicais exigem ruptura com o paradigma dominante (revoluções de pensamento). Não é outra coisa a interpretação que se pode fazer da segunda lei de Clarke. Os paradigmas em ciência delimitam o universo do possível. Tem que se ir além dos paradigmas, para que se obtenham avanços significativos. Quanto à terceira lei, desnecessário comentar.
Arthur Clarke dizia que se os “dois Isaacs” (referindo-se a Isaac Newton e Isaac Asimov) se contentaram com três leis, ele não precisava postular mais nenhuma. Apesar disso, continuou criando algumas leis mais "informais". Como no Apêndice 2 de “The Odissey File”, em que descreve sua lei número 69: “Ler manuais de computador sem o hardware é tão frustrante quando ler manuais sobre sexo sem o software”.
(P.S.: Coluna originalmente publicada em 3 de maio de 2012.)
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

