OPINIÃO

O cacondense ilustre

Por
· 5 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?
A- A+

Distinções acadêmicas, condecorações científicas, premiações diversas e o reconhecimento como “o pai da soja tropical” e “o desbravador do Cerrado” são indissociáveis da vida profissional de Romeu Afonso de Souza Kiihl. Entre muitos, destaque para o “Prêmio Frederico Menezes Veiga 1983”, pela soja tropical; a “Comenda do Mérito Sudoestino 1999”, concedido pelos municípios do Sudoeste do Paraná, em função de ter sido o criador da soja BR 16, que chegou a ser a cultivar mais plantada no Brasil; o convite, em 2003, para plantar a primeira árvore, um ipê roxo, no “Bosque das Celebridades”, que foi criado na área experimental da Cooperativa C.Vale, em Palotina, no PR; a “Comenda André Maggi 2004”, concedida pela Câmara Municipal de Rondonópolis, MT; o prêmio do Congresso Mundial de Soja, realizado na China, em 2009, pela contribuição dada ao desenvolvimento da lavoura e da indústria da soja no mundo, quando foi eleito, pelos pares, como destaque da América do Sul; e o título de “Cidadão Honorário” de Londrina, PR, que recebeu, em 2023, pelos relevantes serviços prestados à municipalidade. Mas, nenhuma dessas condecorações, talvez, tenha sido tão especial para ele quanto o título de “Cidadão Cacondense Ilustre”, que lhe foi outorgado pela Câmara Municipal de Caconde, município da região cafeeira do Estado de São Paulo, que é a sua terra natal.

A esposa Laura Regina Bernardes Kiihl e as filhas Alba Mieco Manabe Kiihl e Tammy Aparecida Manabe Kiihl, com o apoio de texto da jornalista Vanessa Sene Cardoso Pereira, lançaram, recentemente, o livro “Romeu Kiihl – Pai da soja tropical no Brasil”. Uma espécie de biografia de Romeu Kiihl em que, paralelamente, ao destaque dado à sua vida afetiva nos permite entender como, pela determinação e competência desse insigne cientista, o Brasil se tornou o maior produtor mundial de soja.

Romeu Kiihl, o filho do alfaiate Orlando e da dona de casa Alba, nasceu em 9 de fevereiro de 1942, em Caconde, no Estado de São Paulo. Desde criança, por influência de um tio que era produtor de café, dizia que queria trabalhar na atividade agrícola. Foi aluno destaque em todos os níveis escolares. Ao terminar o Colegial, mesmo sem demostrar vocação, prestou vestibular para Medicina. Não logrou aprovação. Como primeiro colocado da turma do Colegial recebeu uma bolsa de estudo da Prefeitura de Caconde. Foi então que se encontrou, ingressando, em 1961, no curso de Agronomia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a famosa ESALQ que é vinculada à USP, na cidade de Piracicaba, SP. Foi na ESALQ que, embora mantivesse o interesse pelo café, teve a sua atenção despertada, na área de genética e melhoramento de plantas, para culturas anuais, com destaque para o arroz. Todavia, quando foi fazer estágio no Instituto Agronômico de Campinas, o IAC, por um ruido de comunicação, em vez da seção de cereais, acabaria na seção de leguminosas, onde teve o primeiro contato com a cultura da soja, e, depois de formado, acabaria integrado à equipe de pesquisadores da instituição.

No IAC, trabalhando com soja, Romeu Kiihl foi estimulado a buscar aperfeiçoamento no EUA. Três universidades americanas eram os alvos: Purdue, Illinois e Iowa. Mas, por sugestão do pesquisador Francisco de Jesus Vernetti, foi para o Mississippi, trabalhar com o Professor Edgar Emerson Hartwig, que era quem estaria, naquela época, desenvolvendo a soja que precisávamos no Brasil. Ou seja, cultivares adaptadas a baixas latitudes.

Em agosto de 1966, Romeu Kiihl embarcou para fazer mestrado nos EUA. Foi naquele país, junto da equipe do Professor Hartwig, que ele entendeu a importância da latitude (pelo comprimento do dia/fotoperíodo) na adaptação da soja. Descobriu que o controle genético do florescimento dessa leguminosa, em época normal de cultivo, e o chamado período juvenil longo (ou florescimento tardio sob dias curtos, quando a variedade, com essa característica, não floresce, mesmo sob condições favoráveis, até completar o período de juvenilidade) são independentes e, sendo, o segundo, um caráter recessivo, isso permitia múltiplas combinações e facilitava a seleção. Foi assim, graças a essa descoberta, que uma espécie originária de latitudes ao redor de 45º N pode, atualmente, ser cultivada até na linha do Equador (0º de latitude). Muitos dividem a história da soja no mundo, antes e depois da descoberta do período juvenil longo. No Brasil, sem sombras de dúvidas, foi essa descoberta que permitiu a chamada tropicalização a soja, que viabilizou a migração desse cultivo para o centro e norte do País.

De volta ao Brasil, Romeu Kiihl continuou trabalhando com soja no IAC. No começo 1974 migrou para o Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), com a incumbência de criar o Programa de Melhoramento Genético de Soja do Paraná. Em Londrina, Romeu e o inseparável colega e amigo Leones Alves de Almeida montaram uma equipe de elite para trabalhar com soja. Nessa época Romeu conheceu a advogada Maria Luzia Manabe, com quem se casaria no final de 1974. De volta aos EUA, para cumprir programa de doutorado, mais uma vez no grupo do Professor Hartwig, quem Romeu rotula de gênio e desenvolveria uma forte relação de amizade, configurando-se no seu discípulo favorito, na Universidade do Estado do Mississippi, para dar continuidade ao estudo com soja.

Depois de quatro anos no IAPAR, Romeu Kiihl, em 1978, passou para a equipe de pesquisadores do novel Centro Nacional de Pesquisa de Soja da Embrapa, na época, integrado à sede do IAPAR, em Londrina. Na Embrapa, onde passaria os próximos 25 anos, foi uma liderança inconteste no programa de melhoramento genético de soja, que, sob o seu comando, graças à incorporação dos genes de período juvenil longo, criou-se cultivares que permitiram que a soja, efetivamente, migrasse, do sul, para a região tropical do centro e norte do Brasil.

Em 1991, com morte da esposa Maria Luzia, Romeu Kiihl, então com duas filhas adolescentes, Alba, nascida em 1976, e Tammy, 1978, teve de contar com a ajuda da mãe, Dona Alba, que passou a viver com eles em Londrina. Foi nessa época, que, tendo Dona Alba como Cupido, entrou na sua vida a climatologista do IAPAR, Laura Bernardes, com quem compartilhava a paixão por animais, ela cachorros da raça Boxer e ele canários belgas. Laura e Romeu se casariam em 27 de fevereiro de 1993.

No começo dos anos 2000, Romeu Kiihl deixou, por aposentadoria, a Embrapa. Foi homenageado pelos colegas com textos manuscritos que davam forma a um livro que recebeu o sugestivo título de “Tributo a um gênio”. Nesses textos, sobressem-se menções às qualidades humanas de Romeu Kiihl, que além de mago do melhoramento da soja no Brasil, destacou-se pela ética profissional, pelo respeito e pela disposição para ajudar os colegas. Um cientista que, dizem, “enxergava além do óbvio”. Em 2002, junto com outros pesquisadores e com o apoio de sementeiros do MT, participou da criação da empresa Tropical Melhoramento e Genética, a exitosa TMG. Nessa empresa permaneceria vinculado pelos próximos 15 anos, tendo contribuído no desenvolvimento da soja Inox, variedade resistente à ferrugem. Aficionado pelo melhoramento de soja, contabilizando a participação na criação de mais de 150 cultivares, Romeu Kiihl deixou a TMG, mas não parou de trabalhar. Atualmente, continua em atividade, na sua própria empresa, a MGS – Melhoramento Genético de Sementes.

Romeu Kiihl sabe que foi um gigante do melhoramento genético da soja. Todavia, quando se expressa, publicamente, faz questão de deixar claro que o sucesso dessa oleaginosa no Brasil, além do melhoramento genético, deve ser creditado também às praticas de manejo relacionadas com a correção dos nossos solos e ao profissionalismo dos agricultores brasileiros.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

Gostou? Compartilhe