Ainda no marco das comemorações dos 100 anos de O NACIONAL, cumpridos no último dia 19 de junho, vou reprisar a coluna que considero o marco inicial da serie de colaboração semanal com o ora centenário jornal local. Antes dela, textos esporádicos, assinados por mim, podem ser encontrados nas páginas de O NACIONAL. A referência é a coluna “Os prognósticos de tempo e de clima”, que foi veiculada na página 4 da edição de 21 de outubro de 1995. E, por mais incrível que aparente, mesmo passados quase 30 anos, o texto ainda soa atual.
A meteorologia destaca-se como uma das preocupações cotidianas de milhares de pessoas em todo o mundo, não obstante, enquanto a ciência atua nas fronteiras do conhecimento, em nível popular persistem crendices e desinformação que remontam ao obscurantismo da idade média.
A parte da meteorologia que trata de prognósticos de tempo e de clima, é, sem dúvida, a de maior interesse, uma vez que é a única que ocupa espaço sistemático, diariamente, em jornal, rádio e TV. Apesar disso, é nesse particular que o nível de desinformação se manifesta mais intensamente, passando desde o desconhecimento dos produtos e serviços meteorologia e de falta de crédito nas previsões, ao extremo oposto da crença em previsões, cujos limites de prazos extrapolam as potencialidades científicas atuais.
Desse modo, consideram-se oportunos alguns esclarecimentos que possibilitam diferenciar as previsões cientificas de tempo e de clima de meras especulações descabidas de qualquer sentido.
A meteorologia é uma ciência física experimental. Portanto, como toda ciência experimental, os seus conhecimentos são sempre acompanhados por algum grau de incerteza. A manifestação dessa incerteza nos modelos de previsão é o que, popularmente, acaba sendo denominado erro de previsão.
Os prognósticos do tempo tratam da previsão de variabilidade do estado instantâneo da atmosfera em um determinado ponto da superfície da terra. Hoje (1995, frise-se), o seu limite de previsibilidade se estende a 5 dias com uma confiabilidade superior a 60%, em escala sub-regional de 100 km x 100 km. Em curto prazo, o alcance de índice de acerto superior a 80% é algo factível. Ou seja, quanto maior o prazo, mais aumenta a incerteza.
As previsões climáticas, cuja denominação, talvez, mais adequada seria previsões sazonais, reservando o termo climático para previsões em escala de tempo decadal e secular, pelo uso de modelos GCM, (General Circulation Models), tratam da previsão do estado médio da atmosfera com antecedência de 3 a 6 meses, em escala regional de 1000 km x 1000 km. Para ser útil necessitam de índice de acerto maior do que 50%. Hoje são factíveis apenas para algumas regiões do País, como, por exemplo, na previsão de início e fim da estação das chuvas no norte da Região Nordeste, com base, no comportamento do fenômeno El Niño - Oscilação do Sul e na anomalia de temperaturas das águas do Oceano Atlântico. Os bem-conhecidos ENOS e Dipolo do Atlântico.
De modo geral, são perdidos, anualmente, 30%, das safras agrícolas do mundo por adversidades meteorológicas, sendo que, desse montante, 10% poderiam ser evitados pelo uso adequado de informação meteorológica de qualidade. O uso de informações meteorológicas nas tomadas de decisão na agricultura, tanto em nível de planejamento como na escala operacional, tem sido o centro das atividades em Agrometeorologia ora em andamento na Embrapa de Passo Fundo.
Nesse contexto, a EMBRAPA Centro Nacional de Pesquisa do Trigo (atual Embrapa Trigo) e o jornal O Nacional passam, a partir de hoje, a colocar à disposição da comunidade os mais modernos produtos de meteorologia disponíveis no Brasil, tendo como foco as condições de tempo e de clima de Passo Fundo e região.
A todos um bom uso da informação!
E assim se deu. Mas, se fosse escrever essa coluna hoje, talvez tivesse de acrescentar poucas coisas. Imagino que, pelo menos, o texto seria mais bem escrito. E não me furtaria de explorar o entendimento conceitual de clima, iniciando pela definição clássica de Julius von Hann, do século XIX, passando pelo Sistema Climático do IPCC, anos 1990, e suas simulações in silico, até a percepção de clima como memória cultural daquilo que é esperado, em dado local e certa época do ano, vindo a se configurar na expectativa humana sobre os estados transientes do tempo.
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

