O Bispo de Roma, Leão XIV, inaugura o seu roteiro internacional, a começar por dois países: Turquia e Líbano, no contexto das guerras no Oriente Médio, levando uma mensagem religiosa de unidade cristã e, ao mesmo tempo, inevitavelmente levantando questões geopolíticas de suma importância, em clara mensagem à política internacional. A viagem reforça a diplomacia vaticana com relativa sintonia com o foco do Papa Francisco nas questões do Oriente Médio. O Secretário de Estado Vaticano, responsável pelas questões de trato diplomático, o cardeal Pietro Parolin, reforça que a viagem ressalta o diálogo inter-religioso, “como um sinal de esperança e paz”, ressaltando a vida dos cristãos no Oriente Médio, alertando: “gostaríamos que pudessem permanecer em sua terra”. Parolin tem sido um defensor da tradição católica, principalmente no aspecto da proporcionalidade do uso da força nos conflitos internacionais.
Turquia e Líbano
A passagem pela Turquia reforça principalmente os 1700 anos do Concílio de Niceia e dele, o Credo Niceno, que busca unificar o entendimento cristão. Na ocasião, o Bispo de Roma encontrar-se-á com o Patriarca Bartolomeu, em Istambul, reforçando a ideia de unidade, em um contexto de divisões internas entre os cristãos, que acaba por fragilizar o próprio diálogo sobre a paz. A Turquia, em termos religiosos e geopolíticos, simboliza a ponte entre dois mundos, sendo um país ambíguo, membro da OTAN, entre conflitos da Rússia com a Ucrânia e no Oriente Médio. Já o Líbano, talvez seja, entre os países árabes, com a menor presença cristã, um Estado em processo de decomposição. Na agenda, está prevista uma oração no porto de Beirute (que passou por uma explosão em 2020). A mensagem parece ser de que a paz precisa de estruturas sólidas, não apenas narrativas vazias.
Geopolítica
Em termos geopolíticos, a Turquia é país-chave, que enseja uma ponte diplomática entre Washington, Kiev, Moscou e Teerã, no contexto do tabuleiro geopolítico no Mediterrâneo Oriental, ensejando um diálogo diplomático necessário, mas também ações concretas na direção da paz seja no conflito da Rússia com a Ucrânia, como o conflito entre Israel e Gaza, tornando o país uma peça central na desescalada militar em ambas as regiões. O Líbano, por sua vez, escancara uma realidade no contexto do entendimento católico da comunidade internacional, com a seguinte reflexão de caráter moral: a aceitação das potências mundiais de um Estado já em processo falimentar, ser palco de um dano colateral no tabuleiro geopolítico regional. A diplomacia vaticana tem reforçado também, no contexto das guerras no Oriente Médio, a proteção das minorias cristãs, no sentido pleno de uma cidadania não relativizada. O Papa Leão XIV é americano e a sua viagem coincide com o feriado de Ação de Graças nos EUA, demonstrando que a sua preocupação central é a proporcionalidade e não os interesses temporários de Washington. No contexto Rússia e Europa, a Turquia é o corredor estratégico entre o Kremlin e a OTAN. No contexto israelense, a mensagem é de que os ataques aéreos respeitem a proporcionalidade, mantendo-se a segurança de civis inocentes. Em um momento de muitas divisões religiosas dentro do plano ocidental, a recuperação do Credo Niceno é uma forte mensagem de unificação, ou como ressaltava o tratadista católico, Francisco de Vitoria (1483-1546), a ideia de “Totus Orbis”, de uma comunidade internacional.

