OPINIÃO

Detalhes tão pequenos do Senhor

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Consta que Deus criou o mundo em seis dias — no sétimo, descansou.

Trago Deus em altíssima conta, mas Ele tem certa responsabilidade nesse imbróglio sobre a escala seis por um. Poderia ter encerrado tudo na sexta.

Segundo Gênesis, o terceiro dia foi inteiramente dedicado à terra seca, aos mares, às plantas e às árvores.

Receio que o furo esteja aí.

Não sei se era mesmo o caso de emprestar tanto tempo na complexidade estética e na variedade cromática dos pimentões — sobretudo no mesmo dia reservado aos mares e à ladeira da Capitão Eleutério.

Sou um entusiasta do pimentão — mas como peça de design. Poderia tê-lo criado com calma, no sábado, como um hobby. Um Deus que criou a girafa, a cannabis e Jericoacoara deve curtir artesanato.

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O pimentão escancara um traço da personalidade divina sofisticado, intransigente e autoral. Características que eternizam os gênios à posteridade — mas que também os submetem a eventuais atrasos.

É um temperamento que não se repara, por exemplo, na correção aplicada à couve-flor. A couve-flor é um brócolis que faltou uma demão; falha razoável numa linha de produção natural e caótica, em um período da história anterior ao advento da Embrapa. Surge ali a faceta de um Criador prático, afetivo e efetivo, que compensa a aparência pálida e mazelada de sua criatura com mais colina e folato. A solução não está no pigmento, mas no caráter.

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A batata, apesar de suas fascinantes e quase infinitas possibilidades, talvez tenha sido a invenção mais subestimada do terceiro dia. Desengonçada, sem carisma, relegada aos subterrâneos do solo — tudo indicava uma trajetória de pouco brilho nutritivo e muitos reveses existenciais.

A ideia de um tubérculo oprimido por uma flora suspensa, repleta de medalhões exuberantes e badalados — figos, azeitonas, tâmaras, romãs — que parte da indiferença e da desesperança para se tornar símbolo da ascensão do Império Inca e da resiliência alimentar europeia durante a Segunda Guerra renderia, no mínimo, mais uma grande novela bíblica da Record.

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Belo por fora e vazio por dentro, a metáfora do pimentão nos punge neste fim de ano com uma bonita mensagem sobre a vaidade mesquinha diante da brevidade da vida.

Está também no Gênesis: “Do pó vieste, e ao pó tornarás.”

No caso do pimentão, em páprica.

No sexto e último dia de labuta, Deus ainda criou os animais terrestres, incluindo os seres humanos — seu projeto mais excêntrico e ousado.

Sobrecarregado, precisou retirar às pressas uma corcova dos camelos para entregar tudo no prazo.

A culpa é nossa pelo dromedário.


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Pular com fé

Santo Antônio é membro do alto escalão celestial. Seus préstimos de padroeiro cobrem de padeiros e pedreiros a marinheiros e viajantes. Mas, pelos modos coercitivos com que costumam afogá-lo num copo de requeijão para firmar matrimônio, receio que tenha acumulado as demandas de casamenteiro meio a contragosto. Trata-se de um punitivismo arcaico, que pede certa atualização — embora não afete em nada seu carisma e popularidade.

Em contrapartida, outro santo muito pouco badalado amarga um ostracismo extremamente injusto e inexplicável. Talvez isso se explique pelo fato de sua lógica devocional ter antecipado em séculos aquilo que hoje o modismo corporativo consagra como inovação: metas claras, resposta rápida, zero burocracia e penitência de fácil liquidação.

Não que arrumar pretendente seja tarefa simples, mas São Longuinho é o único santo que recebe o pedido e resolve no mesmo dia, ao preço justo de três pulos curtos e descontraídos.

Falo por mim: estou no segundo casamento, mas só esta semana já perdi a carteira quatro vezes.

Em tempos de meritocracia tão exaltada, já merecia ter sido promovido do setor de achados e perdidos.

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