Paulão
Os amigos resolvem mudar de plano e evaporam. Desta vez, a troca de plano foi do cara do planejamento, Paulo Severo. Historicamente, a redação de O Nacional tem uma energia magnética diferenciada, desde os tempos em que Múcio de Castro atraia a intelectualidade ao seu entorno. E, assim, continuou com a presença das cabeças mais pensantes - das humanas às exatas. Paulão gravitava por ali. Nos conhecemos nessa órbita com cheiro de tinta, ímpetos de rebeldia em plena ditadura e sonhos encobertos pela fumaça dos cigarros.
Não nos faltavam desculpas para afogar as mágoas e desopilar as palavras. No bipartidarismo estávamos sob o mesmo guarda-chuva. No multipartidarismo ficamos em trincheiras distintas, porém, não tão distantes. Nas Diretas Já, novamente estávamos lado a lado. Já o velho Boka era o ponto de encontro estratégico. Paulão morava ao lado, excelente desculpa para a chegada e logística facilitada para a saída. Um arquiteto que respirava política. Nunca foi de palanque, pois sua habilidade era mais eficaz nos bastidores.
Como urbanista, carregou o piano do Plano Diretor. Enfrentou a ignorância e a arrogância dos poderosos para impor a visão técnica. Para sorte de Passo Fundo, Paulão venceu a batalha. Agora, deixo de lado o arquiteto e urbanista, ex-secretário de Planejamento, político ou funcionário público e coloco o ser humano no início da fila. O brilho maior de Paulo Severo era sua invejável inteligência, além de uma memória para dar nó em qualquer IA.
Para discutir com ele era necessário muito preparo. O ímpeto na defesa das ideias era suavizado pela diplomacia da sua índole macia. Convergíamos e divergíamos nos caminhos políticos. Mesmo quando em posições antagônicas, das discussões com Paulão muito se aproveitava. Às vezes até erguia o tom, mas, logo sua conhecida gargalhada ecoava bem mais alto. Época maravilhosa em que as pessoas eram valorizadas pela inteligência e não pela prepotência.
Chinelagem I
Enquanto alguns estão afoitos com as sandálias, eu estou de olho na multiplicação social dos chinelos. Noite dessas, um casal desce de uma bonita caminhonete para pegar um sorvete. O cara deixou o som alto mesmo com o veículo vazio. Voltou e, por quase meia hora, a tortura sonora ecoou num raio de uns 70 ou 80 metros. E adivinhem só qual o tipo de som? Sim, sertanejo! Ora, essa é uma maneira compulsória de obrigar os ouvidos alheios a escutar o esterco que aduba seus pensamentos.
Isso, com a bondade de considerar tal sujeito como racional. Meritocracia ou hereditariedade, o cidadão aparentava boas condições econômicas. E não estava de chinelos. Ostentava um tênis branco, cujo modismo já está em declínio. Mesmo sem chinelos, isso é a mais grotesca chinelagem. Nas ruas, a cada cinco minutos passa um veículo detonando o som. Desconfio que não sejam incomodados por algum tipo de fiscalização.
Chinelagem II
A chinelagem está em alta. É alimentada especialmente pelas redes sociais, mas péssimos exemplos também vêm de esferas políticas ou correlatas. Pior! O dinheiro público para a arte, que deveria privilegiar a erudição, é canalizado para o dramalhão de cânticos semitonados. Os versos, verdadeira ode às guampas, têm passagens trágicas para envergonhar a mais sangrenta crônica policial. Os arranjos, quando quase aceitáveis pelos meus ouvidos, lembram os boleros mais bregas em discos de vinil na histórica Xangrilá.
Mas, ao que parece, há interesses em nivelar a cultura por baixo. Ou, pior, enterrá-la. Sertanejo ou outra porcaria, ninguém pode ser obrigado a escutar o que não quer. Para acabar com a chinelagem, só mesmo com um par de chinelos para dar boas chineladas na bunda dos mal-educados. Mas, atenção: muito cuidado com a marca do chinelo para não soltarem as tiras.
Temerosos
Quem dá golpe é golpista. Quem não deve, não teme. Quem deve, paga. Quem não paga é caloteiro. Quem foge é réu confesso.
2026
Mais uma troca de ano. Então, é o momento para expressar os mais puros e necessários desejos: muita saúde, boa cognição, serenidade e harmonia. Em tempo: menos redes sociais e mais tête-à-tête. Feliz Ano Novo!
Pastelaria
Encerra mais um ano com os mesmos odores de frituras e refogados.
Centenário
Finalizamos o ano do Centenário com a marca de cem anos e 195 dias de O Nacional. E nem vou cobrar 20% para tirar pedidos.
Trilha sonora
Elis Regina - Fascinação


