Manifesto de Liubliana
Em 2023, na cidade eslovena de Liubliana, pesquisadores ligados a universidades europeias publicaram um manifesto alertando para o declínio da “leitura profunda, crítica e prolongada”. O documento rapidamente recebeu apoio de escritores, filósofos, ministros da cultura de vários países e outras figuras públicas. Segundo o manifesto, a digitalização facilitou o acesso à informação e transformou profundamente a forma como vivemos, estudamos e lemos, mas também incentivou uma leitura superficial, fragmentada e dispersa.
Necessidade da leitura de alto nível
Pesquisas recentes indicam uma queda na prática da leitura profunda e de nível superior. Para os autores do manifesto, a leitura em alto nível — de textos longos, que exigem atenção, concentração e que fornecem novos conhecimentos — é essencial para a formação de cidadãos informados em sociedades democráticas. Esse tipo de leitura desenvolve o pensamento crítico e analítico, amplia o vocabulário e fortalece a capacidade de compreender sistemas complexos. Um vocabulário muito simples e limitado dificulta a formulação de ideias mais elaboradas. A leitura de nível superior também estimula a empatia, ao nos apresentar pessoas e situações diferentes das nossas. Em suma, contribui para reduzir nossa ignorância e estreiteza de visão.
Leitura superficial e dispersa
Segundo o Manifesto de Liubliana, a era das tecnologias digitais trouxe inúmeros benefícios, como o acesso a grandes quantidades de conteúdo em áudio, vídeo e texto. Esses materiais tornaram-se disponíveis inclusive em regiões desfavorecidas e atenderam às necessidades de leitores com diferentes deficiências e habilidades. Entretanto, embora o ambiente digital possa promover mais leitura do que nunca na história, ele também oferece inúmeras tentações para ler de forma superficial e dispersa — ou até mesmo para não ler de forma alguma.
Vulnerabilidade à manipulação
O processo de leitura de nível superior é um exercício de atenção e paciência cognitiva. Os textos longos, como os livros, aprimoram as habilidades de leitura, expandem o vocabulário, fortalecem capacidades conceituais e desafiam ativamente os preconceitos dos leitores. Sem esse tipo de leitura, ficamos mal preparados para resistir a simplificações populistas e teorias conspiratórias.
Uma exigência da democracia
Segundo os autores do manifesto, “o futuro da leitura afeta o futuro das nossas sociedades. Uma sociedade democrática, baseada em um consenso informado de múltiplos interessados, só pode ter sucesso com leitores resilientes, bem versados na leitura de alto nível. Os formuladores de políticas em todas as áreas precisam estar cientes disso. Pois, nas palavras do alerta muito citado de Margaret Atwood: ‘Se não houver jovens leitores e escritores, em breve não haverá leitores e escritores. O letramento estará morto, e a democracia... também estará morta’.”
Computadores e livros
Um dos autores do Manifesto de Liubliana, o escritor e professor Mihael Kovač, alerta que limitar o debate apenas aos livros seria um erro, transformando-nos em “dinossauros na sociedade da informação”. Ele defende que ainda é preciso convencer as pessoas de que ler faz sentido, já que a falta de leitura compromete o pensamento, a empatia e o vocabulário. Kovač lembra que, nos anos 1940, campanhas contra o tabagismo e a favor de hábitos saudáveis mudaram comportamentos: o número de fumantes caiu ao menor nível da história e a prática de exercícios se popularizou. Para ele, a leitura pode — e deve — passar por uma transformação semelhante.

