OPINIÃO

Entre o “eu” que escreve e o “você” que lê segundo Mauro Gaglietti

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Mauro Gaglietti, “o professor de gentes”, no seu mais recente livro, “O espelho que respira”, publicado pelo Grupo Editorial Caravana, deixou de lado os barroquismos e a profusão de notas de rodapé, que caracterizam o estilo das suas obras acadêmicas, para, em 11 crônicas, sem excessos, estimular que as pessoas, quando diante do contraditório, jurídico ou não, pelo menos conversem com um pouco mais de humanidade. Atingido esse feito, a obra terá cumprido o seu papel e, finalmente, “o espelho terá respirado”, justificando o livro ter vindo à luz.

Ao dedicar o livro à esposa Biva e à filha de coração, Alexandra, Mauro expõe segredos. Revela que “o espelho não o reflete; ele o desorganiza”. E que é no rosto da Biva que encontra a resposta que não precisa de palavras. Ao capturar o invisível que os une, o espelho respira. E realça a confiança depositada em Alexandra, que, ao seguir os caminhos da psiquiatria, com a delicadeza que lhe é peculiar, poderá iluminar o que no outro ainda é sombra.

Os encontros humanos não seguem linhas retas, destaca Mauro Gaglietti. E que há verdades que só se revelam quando o espelho deixa de refletir com tanta exatidão. O invisível precisa ser sentido. Que a empatia tem de se sobrepor à simpatia. Não é suficiente ser simpático, e não dispensar qualquer esforço para escutar o silêncio do outro. Quem sabe “descalçar os sapatos da vaidade”, abster-se de julgamentos apressados e pisar no chão que o outro pisa? Que muitos, estejamos cientes, nesses tempos apressados, não pedem mais do que apenas serem escutados. Alteridade, acima de tudo!

Transformar confrontos em encontros não é algo alcançável com receitas prontas. E Mauro Gaglietti é sabedor disso. Nos conflitos, em geral, cada parte quer falar mais alto. Quando uma parte não escuta a outra, não há avanços. Por isso, a arte da mediação somente chega a bom termo quando duas histórias que divergem são postas para conversar e atingem a convergência. É quando, frisa Gaglietti, os “espelhos imperfeitos” respiram e se transformam ao tocar um ao outro.

O silêncio que acometia o paciente do quarto 312, destacado no texto “Quando a boca reaprende a morar no mundo”, é sintomático das doenças marcadas pelo excesso de silêncio. Quando se guarda tanto, o corpo precisa falar; nem que seja na forma de dor. Não foi seguindo o prontuário no que diz respeito a questionamentos sobre dor, febre ou comentando o resultado de exames que o silêncio daquele homem foi quebrado. Mas, sim, diante da inusitada pergunta do que ele gostava de comer quando estava em casa. Nem sempre é apenas a droga de última geração, apesar de quase sempre indispensável, que pode trazer a cura. Alguém disposto a escutar sem relógio no pulso, na alegoria usada por Mauro Gaglietti para expressar pressa, pode fazer a diferença.

As histórias humanas, especialmente aquelas forjadas ao redor dos fogões, distantes dos agitados tempos Wi-Fi comandados pelas redes sociais e aparelhos moveis dos quais não se consegue desgrudar os olhos, nem mesmo na companhia de pessoas agradáveis e que nos são caras, mereceram a atenção de Mauro Gaglietti. Histórias humanas que não terminam quando acabam, mas encontram um lugar seguro para continuar, seja com os mesmos ou com outros protagonistas que se juntam a elas ao longo da jornada da vida, inclusive, pavimentando futuros.

Memórias, nem sempre agradáveis ou que afloram, no tempo presente, não necessariamente, por nossa responsabilidade, são partes de nós e com elas temos de lidar. Afinal, há medos que não fazem mais sentido e continuamos tendo. Seriam heranças epigenéticas? As memórias divididas, quando compartilhadas em escutas, não mudam o que passou, mas podem mudar o peso do passado; eis a questão.

A justiça mais além de meras sentenças punitivas mereceu especial atenção nas crônicas do livro “O espelho que respira”. O “cumpra-se!” protocolar, que costuma selar a decisão de magistrados, não necessariamente repara o dano na sua totalidade. Ninguém muda ninguém. Quem sabe as pessoas mudem quando não precisarem carregar escudo e lança para se defenderem o tempo todo e de todo mundo. Talvez, num conflito, a melhor solução não seja quem tem razão, mas qual justiça cabe aplicar. Uma utopia Gagliettiana? Leia o livro e tire as suas próprias conclusões. Aliás, o autor encerra destacando que “O espelho que respira” não é uma mera frase bonita para enfeitar capa de livro exposto em vitrines de livrarias (disponível em: https://caravanagrupoeditorial.com/livros/o-espelho-que-respira/).

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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