Os números são impressionantes. Enquanto a população mundial ronda os 8 bilhões de habitantes, o cérebro humano abriga cerca de 86 bilhões de neurônios no perímetro estreito de uma única cachola.
O funcionalismo sináptico é um escárnio. Há tantas autarquias neurais para empregar esse contingente absurdo de células operárias que talvez fosse o caso de os entusiastas do Estado mínimo revisarem o liberalismo de John Locke como doutrina com fortes tintas de socialismo estatal.
Poucas células desfrutam de tanto prestígio quanto os neurônios. Talvez por isso o cérebro seja um órgão ligeiramente superestimado. Ninguém associa uma boa ideia ao fígado, à exceção de gênios etílicos como Ernest Hemingway, Charles Bukowski, Seu Schneider e Tarso de Castro.
Mesmo o coração, durante séculos celebrado como sede da alma, acabou rebaixado a mera bomba hidráulica (à exceção de gênios cardíacos como Ernest Hemingway, Charles Bukowski, Seu Schneider e Tarso de Castro).
É um tanto irônico observar que o mesmo neurônio que opera sob uma lógica quase comunista persiste cercado de uma aura aristocrática.
É como se cada sinapse ordinária fosse um prenúncio de epifania inevitável; como se cada estímulo primitivo nos precipitasse a um novo patamar da espécie perante as tantas idiossincrasias do mundo.
Na prática, porém, entre o Homem Vitruviano e a Teoria da Relatividade, Leonardo da Vinci e Albert Einstein passaram mais tempo soprando flatos contra a camada de ozônio do que alterando o destino da humanidade.
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O hipotálamo é um dos ambientes cerebrais mais badalados. Opera, entre outras funções, os sentidos relacionados à fome e à libido.
É uma demanda confusa que determina o apetite por carboidratos em paralelo aos assanhos fornicatórios.
Em tempos de inverno rigoroso, pode ser frustrante. Sobretudo quando se percebe que toda aquela fúria de roupas espalhadas ao chão era apenas um equívoco neuroquímico em favor de uma boa sopa de capeletti.
(Raramente é ao contrário — ou seja, um agnolini fumegante servir como afrodisíaco suficiente para estimular alguma ereção.)
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A amígdala responde pelo processamento de ameaças, medos e reações emocionais.
Em meu caso, ela costuma responder imediatamente ao comando de voz de Josiane.
Existe uma frequência em particular, entre as dezenas de timbres e entonações que ela se especializou em pronunciar o substantivo “Fernando”, que não raro me reduzem à posição fetal ou a um pranto encolhido no chão do banheiro, escutando Ivan Lins debaixo do chuveiro.
É uma das regiões do cérebro pelas quais hoje em dia tenho o mais absoluto respeito. Por algum tempo recente, foi uma função que me passou distraída; ofuscada por outra infinitamente mais perigosa, pela qual me vi enroscado nas minhas piores encrencas.
O nome não poderia me soar mais sugestivo: neurônio da recompensa.
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Em termos leigos, o chamado neurônio da recompensa não é exatamente um neurônio isolado, mas parte de um circuito dopaminérgico interno do cérebro, responsável por sinalizar a experiência de prazer.
Cientificamente, é um filhote de pinscher mordiscando a bainha da calça em desespero por mais um biscoito de sabor dopamina.
Seu estelionato sensorial costuma produzir consequências devastadoras, sobretudo em sujeitos como eu, predispostos a paliativos recreativos de euforia.
Por sorte, o antídoto estava na antítese: no tédio terapêutico, no enfadonho da rotina, na feira das pequenas porções de bem-estar colhidas no varejo.
Esta semana completaram-se três anos de um estilo de vida excitantemente pacato. Escapulido de atritos e desviado de polêmicas. Ausente do grupo de WhatsApp sobre meritocracia hereditária dos amigos, alheio aos conflitos do condomínio e avesso ao convívio presencial e às redes sociais, onde a cacofonia de bilhões de neurônios em histeria pudesse me fazer recair em alguma diatribe.
Era, em essência, uma espécie de covardia funcional, cujo momento delicado me exige abandonar a toca do isento e tomar partido de uma vez.
O Brasil precisa mudar.
O Brasil precisa de sangue novo.
O Brasil precisa ir contra o sistema.
Ancelotti, bota o Endrick.


