OPINIÃO

CUBA: DA UTOPIA REVOLUCIONÁRIA À TRAGÉDIA NACIONAL (2)

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Batistato: o governo corrupto e ditatorial de Fulgêncio Batista

           O governo de Fulgêncio Batista em Cuba — especialmente sua ditadura entre 1952 e 1959 — foi marcado pelo autoritarismo, pela corrupção, pela repressão política e pela forte influência dos Estados Unidos. Esse contexto ajuda a compreender por que a Revolução Cubana exerceu tanto fascínio entre os latino‑americanos, que viam no movimento liderado por Fidel Castro uma alternativa radical a regimes considerados submissos e antidemocráticos. Esse fascínio não se limitou à América Latina. Em outras regiões do mundo, a Revolução também despertou grande interesse. O filósofo francês Jean‑Paul Sartre é um exemplo emblemático: após visitar Cuba em 1960, escreveu reportagens entusiasmadas sobre o processo revolucionário e tornou‑se um de seus mais conhecidos simpatizantes na Europa.

Golpe de Estado e polícia secreta

           Em 1952, Fulgêncio Batista voltou ao poder por meio de um golpe militar. As eleições foram canceladas porque ele provavelmente seria derrotado. O Congresso foi dissolvido, as garantias constitucionais suspensas e os opositores reprimidos. Criou‑se uma polícia secreta, o Buró para la Represión de las Actividades Comunistas (BRAC), que, junto ao exército, passou a perseguir, vigiar, torturar e assassinar adversários políticos. Diante da ausência de vias democráticas para a ação política, muitos opositores — especialmente jovens universitários e grupos nacionalistas — foram empurrados para a luta armada.    

Influência norte-americana

           Setores estratégicos — como açúcar, energia, telefonia, turismo e cassinos — eram dominados por empresas norte‑americanas, situação que também alimentava o movimento revolucionário. Batista era visto como submisso aos interesses dos Estados Unidos, o que fortalecia o nacionalismo anti‑imperialista. A CIA (Central de Inteligência Americana) colaborou na estruturação do aparato repressivo, que atuava com extrema brutalidade. Nesse contexto, o discurso de Fidel Castro — então ainda não comunista — ganhou grande repercussão entre os cubanos. Ele denunciava a “república neocolonial” e prometia independência econômica e política.

Corrupção

           Máfias norte‑americanas controlavam cassinos, hotéis e o tráfico em Havana. Próxima dos EUA, permissiva com jogos de azar, repleta de turistas norte‑americanos e governada por um regime facilmente corruptível, Cuba tornou‑se um “paraíso” para lavar dinheiro, operar cassinos, prostituição, tráfico de drogas e hotéis de luxo. Chefes mafiosos célebres — como Mayer Lansky, considerado o cérebro da máfia, além de Lucky Luciano e Frank Costello — atuavam livremente na ilha. Havia uma espécie de pacto entre Fulgêncio Batista e a máfia americana. O ditador cobrava percentuais fixos dos lucros dos cassinos, pagamentos para autorizar novos hotéis e casas de jogo e “taxas de proteção” para permitir operações ilegais. Em troca, a máfia financiava o regime. Batista governava em associação com os mafiosos — chamava Mayer Lansky de seu “consultor” —, lucrava com eles e dependia dessa relação para sustentar o governo. Essa situação tornou‑se moralmente devastadora para o regime de Fulgêncio Batista.

As duas realidades cubanas

A combinação de ditadura militar violenta, corrupção e desigualdade criou um clima de insatisfação generalizada que alimentava a oposição ao “Batistato”. Falava‑se em “duas Cubas”: uma voltada para turistas e elites, com cassinos luxuosos, hotéis modernos e vida noturna intensa; e outra vivida pela maioria dos cubanos, marcada por pobreza — especialmente no interior da ilha —, exploração trabalhista, falta de oportunidades e violência policial constante. Dizia‑se que Cuba era um paraíso para estrangeiros e um inferno para cubanos. A oposição ao regime cresceu em todos os setores sociais: estudantes, trabalhadores, intelectuais, camponeses e até segmentos da classe média urbana. Enquanto a luta guerrilheira liderada por Fidel Castro ganhava cada vez mais apoio, o governo de Batista perdia rapidamente sua legitimidade. Em 1958, os Estados Unidos retiraram o apoio militar ao ditador, acelerando seu isolamento.

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