Tenho dito que esse ano marcará o zênite da geopolítica dos estreitos. Hoje, boa parte da atenção internacional permanece voltada para o Estreito de Ormuz; todavia, outro corredor marítimo pode se transformar no principal ponto de tensão do conflito entre os EUA e o Irã. Refiro-me ao Bab el-Mandeb, passagem que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e, por consequência, ao Canal de Suez. É por ali que circula uma parcela significativa do comércio entre a Ásia e a Europa, incluindo petróleo, gás, produtos industrializados e insumos essenciais às cadeias globais de produção. A possibilidade de que os Houthis, grupo terrorista (e proxy iraniano) que controla parte do litoral do Iêmen, ampliem os ataques à navegação ou tentem interromper o fluxo marítimo, o que representa muito mais do que um problema regional. Em um mundo profundamente dependente da logística internacional, um estreito com pouco mais de trinta quilômetros de largura pode provocar efeitos econômicos sentidos a milhares de quilômetros de distância.
Muito além dos Houthis
Observo como improvável que os Houthis consigam sustentar um bloqueio permanente diante da superioridade militar dos EUA e de seus aliados, que mantêm presença naval constante na região. Entretanto, essa constatação não elimina o risco. O objetivo estratégico do grupo dificilmente seria vencer uma guerra convencional, mas impor custos políticos, econômicos e militares suficientemente elevados para ampliar um relativo desgaste americano. Outro elemento amplia a complexidade desse tabuleiro. Na margem africana do estreito encontra-se Djibuti, país que abriga bases militares dos EUA, da França, do Japão, da Itália e da própria China. Essa concentração de forças demonstra que Bab el-Mandeb deixou há muito tempo de ser apenas uma passagem marítima. Tornou-se um espaço onde interesses estratégicos das grandes potências convivem diariamente. A presença chinesa, contudo, não deve ser interpretada como prenúncio de uma participação direta no conflito. Pequim depende intensamente das mesmas rotas marítimas para abastecer sua economia e exportar seus produtos. O seu interesse estratégico converge, nesse aspecto, com o de Washington, qual seja, preservar a liberdade de navegação.
Os cenários
Entendo que o cenário mais provável é a continuidade dos ataques seletivos, capazes de elevar a insegurança sem interromper definitivamente o tráfego marítimo. Um segundo cenário, menos provável, mas possível, envolveria uma escalada regional que obrigasse os EUA, aliados e outros atores a ampliar significativamente sua presença militar no Mar Vermelho. O cenário desejável permanece sendo a contenção diplomática do conflito antes que um grupo regional consiga transformar um gargalo logístico em uma crise econômica global. Ao longo da história, grandes guerras frequentemente ultrapassaram fronteiras nacionais quando passaram a ameaçar rotas comerciais estratégicas. Babel-Mandeb reúne exatamente essas características. Pequeno no mapa, mas gigantesco para a economia internacional, seu destino poderá indicar se a atual crise permanecerá restrita ao Oriente Médio ou assumirá dimensões verdadeiramente globais.


