Na noite de sexta-feira, 15, as luzes voltaram a se acender, a cortina se abriu, as cadeiras se encheram e o palco, mais uma vez, foi o abrigo da arte. Depois de dois anos de reformas e uma espera que, aos olhos de quem tem o Teatro como uma extensão da própria arte, pareceu interminável, o Teatro Municipal Múcio de Castro está pronto para, a partir desse sábado, receber uma extensa programação de atividades culturais que fazem uma homenagem à casa e à cidade. De 16 a 31 de maio, espetáculos teatrais, noites de dança e música irão iluminar, novamente, um dos prédios que é capaz de contar a história de Passo Fundo.
Testemunha silenciosa
Desde o seu surgimento, em 1827, Passo Fundo passou por mudanças que resultaram no desenvolvimento atual da cidade. Por detrás das paredes, ainda que velhas, existe muita história, escrita por cimento, concreto e tijolo. História de um povo, história de uma época, história de uma cidade. Histórias e experiências que, ao longo do tempo, moldaram a sociedade passo-fundense. Dentro das memórias de pessoas que fazem ou fizeram parte da história da cidade se encontram lembranças e vivências capazes de retratar épocas de povoamento, desenvolvimento e modernização. Sim, os prédios históricos de Passo Fundo – oficiais ou não – contam a história da cidade, como se fossem testemunhas silenciosas, trazendo consigo recordações de tempos que não se repetem.
Parte dessas histórias teve início em 1883. No prédio que hoje abriga o Teatro Múcio de Castro, a cidade começava a construir o Clube Amor à Instrução – primeiros indícios de preocupação com a educação da população e, ainda, de organização hierárquica. Ali, em meio a materiais de uma construção inacabada, amantes da leitura se reuniam para discutir textos e encontrar formar de letrar a população. O prédio, concluído apenas em 1889, passou a abrigar o Clube Dramático Passo-Fundense, o Fórum e a Seção de Eletricidade da Intendência da cidade. A cultura nascia na cidade. Organizavam-se as primeiras peças teatrais – ainda que pobres e simplistas. A nova organização do país, que vivia, agora, a República, permitia que, pouco a pouco, a cidade formasse a sua personalidade e encontrasse nos seus prédios, abrigos para as ideias.
Mais tarde, por volta de 1893, o prédio serviu, ainda, para aquartelamento de tropas durante a Revolução Federalista. Cinquenta anos depois, na década de 40, tornou-se a Câmara de Vereadores. Em 86, foi reformado, ganhou palco e espaço para a plateia; nascia, em 1991, o Teatro Múcio de Castro. Hoje, juntamente com os prédios do Museu Histórico Regional e Museu de Artes Visuais Ruth Schneider – que também abrigou a Intendência Municipal - e da Academia Passo-Fundense de Letras - antigo Clube Pinheiro Machado -, integra o Complexo Cultural Roseli Doleski Pretto.
Mudança necessária
O surgimento do prédio no espaço urbano remonta a situação da própria sociedade: a cidade, que beirava os cinquenta anos, crescia e levava consigo a população. Pouco a pouco, o espaço se tornou o coração da cidade: espetáculos, audiências e atividades culturais tomavam o mesmo rumo. Depois de 25 anos da sua inauguração como Teatro Municipal e de 15 anos sem qualquer investimento, mudanças se fizeram necessárias diante da situação em que o prédio se encontrava. A reforma, que foi autorizada em agosto de 2013 e iniciada em março de 2014, teve um investimento superior a R$ 920 mil, foi realizada pela empresa Atílio Tramontini Arquitetura, que venceu a licitação, e foi guiada por um projeto arquitetônico de restauração, elaborado em 2010, pela Zay Arquitetos Associados.
Acostumada com um prédio de cor escura ou, ainda, com tapumes em frente ao Teatro, a população acolhe, agora, um prédio rosa que se destaca, não apenas pela cor, mas pela história que carrega. As melhorias feitas no local incluem, além da pintura, definida através de prospecção pictórica, a restauração das alvenarias históricas, medida que soluciona problemas de umidade e descamação de pinturas; recuperação do telhado e esquadrias, com a preservação do aspecto histórico original. Internamente, as mudanças incluem a substituição completa dos carpetes, poltronas e cortinas, criação de ante câmaras, implementação de sistema de condicionamento de ar, e ampliação da parte posterior para melhor acesso dos camarins ao palco. Os camarins também foram recuperados e ampliados e novos banheiros masculino, feminino e para portadores de necessidades especiais foram adequados. O Teatro Municipal também conta com novo projeto cenotécnico, com implementação de som e luz, que dá mais qualidade para a apresentação de diferentes espetáculos no local.
Todo o projeto teve como base a adequação às normas que regem a acessibilidade universal e segurança.“É uma obra significativa para o meio cultural que esperava há muito tempo por essa reforma. Desde a formação do Conselho Municipal de Cultura, em 2009, já havia um pedido pela restauração do espaço. Então, um dos primeiros compromissos da Prefeitura, em 2013, era atender essa demanda. Desengavetamos um projeto que existia, e trabalhamos na atualização desse projeto. Agora estamos encerrando esse processo para entregar, não só à comunidade cultural, mas à população em geral, esse espaço publico que é tão importante do ponto de vista cultural e histórico”, comenta o secretário de Desporto e Cultura, Pedro Almeida.




