Rossana Stella Oliva Braghini-Psicanalista
Como falei semana passada, a erótica, que compõe o desejo, veicula sentimentos de amor, ódio, ressentimento e inveja que estão presentes em toda nossa vida de relação, incluindo a vida amorosa. Um dos trabalhos apresentados na Jornada da Associação Psicanalítica de Porto Alegre - Appoa- que trata deste tema foi Colar de Pérolas, da psicanalista Eda Tavares. A pertinência do tema deve-se à frequência com que se escuta na clínica a difícil relação das adolescentes e mulheres adultas com suas mães.
Abordarei somente um aspecto da relação mãe e filha que considero interessante no trajeto da assunção por parte da filha de sua feminilidade. A primeira coisa que é preciso saber é o quão devastador este caminho pode ser para ambas se não houver uma renúncia nas fantasias que sustentam esse drama familiar dos dois lados. Voltarei a isso no último parágrafo.
Desde o início o vínculo da menina com sua mãe é marcado por ápices: o primeiro vai desde a gestação até que terminem os cuidados corporais mais diretos. Como foi desejada a recém-nascida? Era mesmo uma menininha esperada, ou era preferido um varão? Um jogo de valores importantes já recai sobre a pequena. Através dos cuidados ministrados, a mãe ocupa o lugar do Outro primordial, aquele tem acesso ao corpo do bebê, para seu desfrute e deleite. E é ela também quem vai dizer ao bebê quem ele é e quem vai ser, como por exemplo, a "lindinha da mamãe" ou "a preferida da vovó", etc.
A partir destas marcas se despregam futuras vicissitudes na vida amorosa. Boas e ruins. Todos nós conhecemos, por exemplo, mães que mesmo que suas filhas sejam adultas, se comportam como tendo direito ainda a seus corpos, gerenciando o ir e vir, com quem devem se relacionar e como devem fazê-lo. Exigem, sobretudo, devoção das filhas, que tem a função de lhes assegurar sua posição de imprescindível, através da anulação dos próprios desejos singulares, para viverem segundo os desígnios maternos. É claro que um corte importante entre mãe e filha, que cabia ao pai fazê-lo, limitando a mãe, não ocorreu.
O segundo ápice consiste em tendo ocorrido tudo mais ou menos bem nesta primeira separação com a Mãe Primordial, ou seja, a mãe renunciando à posse da filha, esta que agora ruma para a adolescência vai se perguntar: o que é ser uma mulher? Como se faz para ter aquele algo a mais que seduz e mantém o par amoroso? Neste momento a filha se voltará novamente para a mãe, não mais para lhe dizer quem é, como quando era bebê, mas para lhe dizer como se faz agora para tornar-se mulher.
Evidentemente a mãe não tem como lhe dar uma resposta precisa, já que cada mulher terá que se fazer por si, se inventar digamos assim, com as "pérolas" recolhidas e guardadas ao longo de sua história singular: palavras, imagens, sons, texturas, perfumes, ideais de tempos passados, de seu tempo... Colar exclusivo, que só ela pode fazer! Porém inicialmente a adolescente pode acreditar que sua mãe não lhe forneceu pronto o colar, porque não a amou o suficiente ou porque não foi capaz, não porque isso era impossível. E aí o ressentimento e o afastamento mútuo se instala.
Seja como for, o drama familiar mãe - filha- feminilidade tem muitos meandros segundo a história individual de cada uma. Mas para que um desfecho menos fatal se encaminhe é necessário que a filha busque individualmente sua significação de feminilidade; que renuncie à idéia de que ela não ganhou o que merecia; e finalmente, que renuncie à crença de que alguém pode lhe mostrar as rotas de sua feminilidade. E compete às mães renunciar à busca da completude narcísica às custas de tentar anular a vida singular de suas filhas.

