Livro reúne três décadas de pesquisa em aveia

Obra foi lançada na Feira do Livro

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 Através de  matérias publicadas em dezenas de  jornais e um rico acervo  fotográfico, o engenheiro-agrônomo  Elmar  Luiz Floss decidiu contar a  história dos 31 anos em que coordenou o Programa de Pesquisa em Aveia, na Faculdade de Agronomia da Universidade de Passo Fundo. O resultado das três décadas de investigação científica (1977 a 2009),  está no livro Aveia “Memória  de uma vida de trabalho e paixão”, lançado terça-feira, na 26ª Feira do Livro de Passo Fundo.Com tiragem de 60 exemplares, a obra, disponível nas principais livrarias da cidade,  reúne  dois prefácios, um deles  escrito pelo padre Elydo Alcides Guareschi, o qual era vice-reitor da UPF, no período de início da pesquisa,  e outro da ex-reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,  e ex- vice presidente do CNPQ, professora Wrana Panizzi. Em entrevista ao ON, o professor  falou um pouco sobre a  trajetória , avanço e contribuição para a cultura da aveia no país.

ON – A escolha pelo formato do livro é uma oportunidade de compartilhar todo o material arquivado nesses 31 anos de trabalho?

Elmar Luiz Floss - O livro reúne material de 1977 a 2009, período em que pesquisei e coordenei o Programa de Aveia na UPF. Foram três décadas muito importantes na minha vida e também para a faculdade de Agronomia, por ser a primeira pesquisa e que teve continuidade até os dias de hoje. Ao longo destes anos, fui acumulando informações, fotos, notícias de jornais. Desde agosto do ano passado comecei a pensar na possibilidade de editar esse material em um livro. Recebi o incentivo de amigos e levei o projeto adiante. É uma homenagem a todos que se envolveram no Programa.

ON - Antes da UPF,  a pesquisa  era comandado pela Embrapa?

Elmar Luiz Floss - Sim, a Embrapa vinha conduzindo os trabalhos desde 1974, mas a partir de 77, houve uma decisão em Brasília de que o órgão deveria cuidar da questão do trigo e da cevada, então ofereceram o Programa para a UPF.

ON -Como era a situação da cultura da aveia naquele período?

Elmar Luiz  Floss - A área de plantio era pequena. Em 1977 se plantava em torno de 37 mil hectares em todo o Brasil. O país importava, do Uruguai, Chile e Argentina, para abastecer a indústria de alimentação humana e também para alimentação de cavalos. Por questões de qualidade, as indústrias somente passaram a utilizar a aveia brasileira a partir de 1982. A maior produção continua sendo destinada para a alimentação de cavalos. Isso é uma tradição que vem da Europa, principalmente da Inglaterra.

ON - Considerando esse panorama, o avanço foi significativo nas últimas três décadas?

Elmar Luiz Floss - Em 2006 chegamos a ter um recorde de 516 mil toneladas produzidas no Brasil, índice que colocou o país no 12º lugar, entre os principais produtores de grãos de aveia no mundo. Ultrapassando pela primeira vez a Argentina. Esse aumento de área cultivada se de deve em parte, à disponibilidade de novos cultivares, que começaram a ser criados em Passo Fundo e também na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com potenciais mais elevados, melhor  adaptabilidade às condições do clima e do solo. Até então, os cultivares utilizados no Brasil eram importados, não tinham adaptabilidade. Houve uma melhoria no potencial de rendimento e também na qualidade do grão, pela exigência da indústria. Os estudos também avançaram nos fatores mais limitantes para a produção que eram as doenças. A aveia é uma cultura muito suscetível à ferrugem da folha e nossas condições climáticas são favoráveis ao seu desenvolvimento. Priorizamos o desenvolvimento de materiais com maior resistência genética, mas ao mesmo tempo, houve a preocupação de desenvolver tecnologias de manejo, visando o controle, desde o tratamento de semente, como da parte aérea com fungicidas, avaliando melhores épocas de aplicação.

ON - A qualidade refletiu no aumento do consumo?

Elmar Luiz Floss - Um aspecto importante durante este período, foi o aumento do cosumo humano do produto, especialmente a partir de 1990, quando o  FDA (Food and Drug Administration)  nos Estados Unidos, declarou que a aveia é um grão funcional que diminui níveis de colesterol sanguíneo, portanto,  previne doenças do coração. Poucos anos depois, a Anvisa no Brasil, também reconheceu também essa capacidade da aveia. Isso aumentou muito o consumo, principalmente entre pessoas da terceira idade. Essa foi a grande mudança. O consumo cresce de 5 a 6% ao ano. Também surgiram novas indústrias e novos produtos entraram no mercado. Um exemplo é a barrinha de cereal, que tem todo o valor nutritivo e é de fácil consumo.

ON -  Boa parte da produção também é destinada para alimentação do gado leiteiro e de corte?

Elmar Luiz Floss - Esse é outro lado da aveia. O principal cultivo no Rio Grande do Sul é da aveia forrageira, dela se produz o feno e a cilagem. Em muitas propriedades o grão, produzido no inverno, é usado como complemento na alimentação do gado leiteiro, principalmente no verão.

ON - O Programa de pesquisa teve papel fundamental nesse desenvolvimento, o que senhor destacaria como resultados importantes?

Elmar Luiz Floss - Sem dúvida foi o desenvolvimento de 23 cultivares, sendo 22 de aveia-branca e uma de aveia-preta, chamada de UPFA 21-Moreninha, essa cultivar foi recomendada pela Universidade da Flórida nos Estados Unidos, com o nome de Black Horizon e no Uruguai com o nome de Azabache. Outra linhagem de aveia-branca cedida à Austrália, foi
recomendada como cultivar denominada Condamine. Além das cultivares, o Programa foi o grande trabalho de extensão realizado pela Faculdade de Agronomia. Através dele  chegamos às propriedades rurais. Em um determinado período,  88% de área cultivada  era de cultivares da UPF.

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