Cruz Vermelha em Passo Fundo: a vivência da Segunda Guerra longe dos campos de batalha

Organização humanitária investiu na promoção de cursos de atendentes de auxiliares de enfermagem no município

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Foto: Arquivo/ AHRFoto: Arquivo/ AHR
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Em dezembro de 1944, as senhoritas que integravam o Núcleo da Cruz Vermelha Brasileira Passo Fundo (NCVPF) apadrinharam um soldado fixando fitas verde e amarelas, protegidas por uma medalha benta de Nossa Senhora Aparecida, na lapela dos uniformes verde-oliva do Exército Brasileiro. Ao som de canções da época e bailes protagonizados pelas mesmas mulheres, a festa natalina promovida pela organização humanitária internacional, no Clube Comercial, marcou a despedida dos expedicionários passo-fundenses que seguiram para o front da Segunda Guerra Mundial a fim de incorporar-se aos demais brasileiros na Europa. 

Há 75 anos do fim do conflito bélico, que marcou a queda do regime nazista de Adolf Hitler, a instalação da entidade no território local, em maio de 1942, sinalizou que a guerra chegou por aqui em outro contexto, além das trincheiras e do banho de sangue dos campos de batalha. “A criação da filiar da Cruz Vermelha também respondia às necessidades prementes derivadas da guerra que, progressivamente, englobaram cidades do interior na ampla campanha de defesa do país e na luta contra o Eixo”, explicou a historiadora e coordenadora do Arquivo Histórico Regional (AHR), Gizele Zanotto 

Além da preocupação com adestramento militar e envio de tropas, o governo brasileiro e a sociedade civil se organizam para dar conta da sustentação no cenário de guerra. A Cruz Vermelha, como afirmou Gizele, passou a investir também em Passo Fundo na promoção de cursos de atendentes de auxiliares de enfermagem, bem como em campanhas como de arrecadação de alimentos, cigarros e agasalhos quentes para os soldados. Isso fez com que o município vivenciasse a Segunda Guerra longe dos campos de batalha. “No pós-guerra, a atuação da Cruz Vermelha seguiu com o trabalho de suporte às famílias na busca por soldados desaparecidos, na manutenção de comunicação entre familiares e soldados e no apoio necessário aos combatentes. Sua ação foi humanitária, solidária, mas também sensível”, pontou a historiadora.

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No pós-guerra, Cruz Vermelha de Passo Fundo trabalhou no suporte às famílias na busca por soldados desaparecidos. Foto: AHR

Madrinhas 

Às cinco horas e trinta minutos da madrugada do dia 24, segundo os registros históricos, os pracinhas passo-fundenses partiram da, agora desativada, Viação Férrea da Gare ao som dos clarins, despedindo-se dos entes queridos. Pelas mãos das madrinhas da Cruz Vermelha, os militares receberam pacotes individuais de mantimentos e, já em solo europeu, era através dos postais enviados por elas que os soldados recebiam palavras de alento e notícias dos familiares que permaneceram na cidade. “A mediação das madrinhas, conforme evidenciam os registros de soldados, foi essencial para aplacar angústias, solidão e medo”, enfatizou Gizele. “Embora os laudos anuais sejam, merecidamente, dados aos pracinhas, há ainda espaço para que em Passo Fundo e em todo o país as enfermeiras, as madrinhas e os demais voluntários que tanto fizeram no contexto bélico sejam também considerados como essenciais para todo o movimento de guerra que vivenciamos em todo o mundo”, observou. 

75 anos depois 

Revisitando os arquivos históricos da Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, as perdas humanas e econômicas do conflito armado que envolveu os países do Eixo, formado por Alemanha, Itália e Japão, e os Aliados, composto pela França, Inglaterra e Estados Unidos, se somaram às campanhas para arrecadação de fundos e minérios para a confecção de armamento de guerra. “O temor de ‘inimigos internos’ também é aguçado iniciando um acompanhamento mais severo sobre imigrantes e seus descendentes”, mencionou a historiadora. Tal narrativa, segundo Gizele, é utilizada para cercear, atacar, diminuir e, como no caso nazista, eliminar esta comunidade. “Em Passo Fundo houveram tensões com a comunidade judaica, embora sua população fosse restrita”, atestou.  

Outra alteração, como lembrou, foi a preparação da população civil para eventuais conflitos em território nacional. Exercícios de defesa antiaérea, distribuição de panfletos explicativos, palestras, notas sobre como proceder em caso de combates formaram parte do que foi difundido entre a população civil, incitada a participar, mesmo que de longe, do esforço de guerra. “Também em Passo Fundo há registros de criação de uma Comissão de Defesa Passiva Anti-Aérea que promovia e advertia sobre como proceder em caso de ataques”, asseverou a historiadora.  


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