Por volta das 22h de sábado (29), Serigne Mbacke Dieng recebeu uma solicitação de corrida no aplicativo Garupa, plataforma na qual está cadastrado como motorista desde 2020. O casal de passageiros não faria um trajeto muito longo, já que o destino deles acabaria no bairro São José. Ao deixá-los no local indicado, Seri, como é conhecido na comunidade senegalesa residente em Passo Fundo, foi alvejado com uma arma de fogo logo após sair do carro com o anúncio do assalto.
O projétil, alojado no lado esquerdo do corpo do motorista, foi removido na terça-feira (1º) através de uma intervenção cirúrgica no Hospital de Clínicas (HCPF), para onde foi transladado pelos socorristas do SAMU em estado grave. “Ele estava falando, consciente. Pediram o celular e o dinheiro, então ele disse que não tinha mais dinheiro, que precisaria ir ao banco”, contou o presidente da Associação dos Senegaleses de Passo Fundo, Ayemerou Diakhate, ao jornal O Nacional.
Naquela noite, lembra, foi chamado às pressas com a notícia da internação do amigo. “Ninguém nunca viu um senegalês fazendo algo errado. Ele estava trabalhando para alimentar a família no Senegal”, mencionou Diakhate. Ao deixar os 4 filhos, mãe e irmãos no país africano, Serigne desembarcou no Brasil em 2012, recorda Ayemerou, e começou a dirigir assim que chegou na cidade e alugou o carro, um Hyundai HB20 branco, para realizar as corridas particulares. “Há seis meses assaltaram outro senegalês, mas em Passo Fundo é diferente. A gente sempre vê que quando acontece isso a polícia consegue prender”, confiou o presidente da entidade representativa dos imigrantes.
O inquérito está sendo conduzido na 2ª Delegacia de Polícia, que não forneceu detalhes sobre as linhas de atuação que estão sendo consideradas para não prejudicar o andamento das investigações. Ainda assim, o boletim de ocorrência detalha que uma das balas foi encontrada no interior do carro localizado pela Brigada Militar abandonado no bairro Leonardo Ilha.
Protesto
Com cerca de 300 motoristas de aplicativos circulando pela cidade em horários flexíveis, durante os quais alguns chegam a rodar por mais de 15 horas, a insegurança se tornou um denominador comum para a categoria que se mobilizou, na manhã de ontem, para reclamar por mais proteção. “A gente chega em locais que os ônibus não chegam e, muitas vezes, nem os taxistas. O rapaz alvejado sensibilizou os colegas”, mencionou o motorista Carlos Alberto Pizatto, quem narra já ter sido vítima de três tentativas de assalto. “Consegui fugir colocando em risco a minha integridade física”, pondera.
Desabilitando os aplicativos de corrida até o início da tarde como forma de protesto, dezenas de motoristas se concentraram no Trevo da Caravela em um deslocamento no sentido bairro-centro. “Ele não é meu amigo, é um irmão para mim. Somos família aqui”, considerou Moustapha Diouf. O senegalês também opera na plataforma de deslocamentos no município e incentivou Serigne a iniciar no ramo durante a pandemia. “Pedimos segurança para continuar com o nosso trabalho, que é digno”, enfatizou Diouf.
Mobilização
Assim que as informações preliminares da tentativa de latrocínio começaram a fazer ruído no círculo social dos imigrantes, uma campanha virtual foi lançada para arrecadar fundos a Seri, que deverá ficar afastado do trabalho até concluir a recuperação. Em três dias, a meta de R$ 15 mil reais havia sido quase alcançada.


