Com mais de duas décadas de atuação no acolhimento de animais silvestres que não podem retornar à natureza, o Centro de Acolhimento Primaves, localizado em Bela Vista, distrito de Passo Fundo, está em processo de transição para se tornar, oficialmente, um zoológico. A mudança de categoria não altera a missão da instituição – vinculada à ONG Convidas – mas representa um passo importante para a sustentabilidade do espaço e para a ampliação da sua atuação em programas de conservação de espécies ameaçadas.
“É importante deixar claro que mudar de mantenedor para zoológico não afeta em nada a missão e o trabalho que desenvolvemos há 21 anos. A única diferença é que poderemos receber visitação e manter o espaço com os recursos da bilheteria”, explica o diretor do Primaves, o biólogo Luizandro Ferrari.
Atualmente, o centro acolhe mais de 300 animais, entre mamíferos, aves e répteis, todos vindos de situações de maus-tratos, atropelamentos ou resgates por órgãos ambientais, como o Ibama e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMA). Nenhum deles possui condições de retorno à natureza.
A mudança de categoria está em andamento junto à SEMA, com necessidade de licenciamento ambiental e autorização da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM). O Primaves também é cadastrado no sistema nacional SOL, vinculado ao Ibama. A expectativa é de que, após a regularização, a instituição possa se tornar associada à Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB), que estabelece padrões de excelência em estrutura e manejo animal.
A transformação permitirá a participação do Primaves em programas de reprodução e conservação de espécies criticamente ameaçadas, como a harpia e o cardeal-amarelo. “Essa nova etapa nos insere em um cenário mais amplo, com possibilidade de contribuir diretamente para a conservação de espécies em extinção, sempre dentro da missão de acolher e cuidar de animais sem possibilidade de soltura”, reforça Luizandro.
A abertura ao público já vem sendo realizada nos últimos quatro anos, como alternativa para enfrentar as dificuldades financeiras agravadas durante a pandemia. Os custos mensais da instituição giram entre R$ 35 mil e R$ 45 mil, e os recursos da bilheteria são utilizados integralmente para alimentação dos animais, cuidados veterinários, pagamento da equipe e melhorias estruturais.
?Responsabilidade
A abertura para visitação, segundo o diretor, também traz mais responsabilidade. “Hoje temos mais visibilidade e, consequentemente, mais compromisso. Quem nos visita pode ver a qualidade da alimentação, o cuidado com o bem-estar, o comportamento e o ambiente dos animais. Nada é escondido. Tudo que fazemos tem foco na excelência do cuidado.”
Além do acolhimento, o Primaves mantém ações contínuas de educação ambiental com escolas das redes municipal, estadual e particular. As visitas são guiadas e abordam temas como tráfico de animais, maus-tratos, conservação ambiental e responsabilidade social. “Não é só criança que precisa de educação ambiental. Nosso trabalho é com todos: estudantes, professores, famílias. A missão é promover transformação”, afirma.
O local, inicialmente pertencente à família de Luizandro, foi desapropriado e, agora, está em processo de doação formal para a ONG Convidas. O centro começou suas atividades exclusivamente com primatas e aves, mas, ao longo dos anos, passou a acolher também mamíferos e répteis.
Hoje, com a mudança de categoria, se prepara para receber novas espécies e ampliar a estrutura, sempre respeitando o critério de origem: animais irrecuperáveis, vítimas de tráfico, acidentes ou maus-tratos. “O que vai mudar é a possibilidade de receber mais espécies, ampliar parcerias, garantir sustentabilidade. Mas a essência continua: acolher com responsabilidade, educar para a conservação e contribuir com a proteção da nossa biodiversidade”, conclui Luizandro.



