Dos negros aos tropeiros, sambas-enredo resgatam a história do município

Escolas de samba apresentam, no sábado (25), uma prévia dos temas do desfile deste ano

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Carnaval de rua retorna ao município após quatro anosCarnaval de rua retorna ao município após quatro anos
Carnaval de rua retorna ao município após quatro anos
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Se, em 1827, os tropeiros margearam o leito do rio que deu origem à formação territorial da cidade de Passo Fundo, quase 195 anos depois eles retornam a cruzar uma avenida, mas na voz dos intérpretes da Acadêmicos do Chalaça. No batuque ritmado de quatro baterias das escolas de samba, a história do município deve ser resgatada nos desfiles que abrem o Carnaval da cidade, no dia 29 de fevereiro, e apresentados à comunidade no sábado (25), na Sociedade Recreativa Garotos da Batucada.


"Sob as bênçãos de Santa Teresa, em águas de Goyen, bandeiras em Iagaí", a vencedora do título do grupo de acesso, em 2015, e entidade carnavalesca que abre a sequência de celebração do Carnaval de Rua deste ano, canta o desenvolvimento local a partir das águas e correntezas do Rio Passo Fundo até a chegada dos bandeirantes "para civilizar" os povos nativos locais. "Vejo lendas de luta e paixão, de tribos guerreiras o sangue derramou", introduz o enredo. A segunda escola a cruzar a Avenida Sete de Setembro, Academia de Samba Cohab I, desprende as correntes escravagistas ao entoar, de forma contundente, os autos de resistência dos negros com o tema "Planalto Negro, de onde vim não existe mais. Passo Fundo Quilombo dos Ancestrais". "Na chibata, o açoite. Mais longa é a noite da escravidão", diz um dos trechos do samba-enredo gravado no Rio de Janeiro.


A miscigenação étnica da população passo-fundense, aliás, volta ao fôlego dos ritmistas da Escola de Samba Pandeiro de Prata com os versos contidos na letra "Do Além Mar ao torrão alcandorado, Passo Fundo a arca do mundo", terceira a preencher o trajeto de desfile com as alegorias e fantasias purpurinadas. "É para trazer as famílias de volta ao Carnaval", disse o presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Passo Fundo (LIESP), Felipe Machado. Passados quatros anos desde a última edição da festa popular, suspensa pela ausência de aporte financeiro, a Escola de Samba União da Vila encerra a noite de abertura cantando a transformação do município em um pólo industrial de produção de energia renovável através do enredo "Dos tropeiros ao biodiesel, uma economia a girar".


Uma festa interestadual


As movimentações culturais para organizar os desfiles, no entanto, tiveram início há sete meses quando a nova diretoria da Liga foi empossada para pensar o Carnaval de Passo Fundo. Com a exclusão de algumas escolas de samba, segundo Machado, "por estarem com dívidas na Receita Federal" somada à ausência de interesse em unificar as festividades, o período carnavalesco entrou em uma fase de maturação no município. "60% de quem acabou com o Carnaval de Passo Fundo foram as próprias escolas de samba. Algumas apareciam só em dezembro para pegar a verba da Prefeitura", disse ele em uma avaliação das edições anteriores.


Sem incentivo fiscal público, os desfiles estão sendo viabilizados, neste ano, com ações de arrecadação de verba promovidas pela própria entidade, como jantares e venda de cachorros-quente. Na sexta-feira (24), Machado deverá se reunir com o prefeito, Luciano Azevedo, para traçar alternativas de parceria com a iniciativa privada. "A gente não vai ter dinheiro público", enfatizou ele. Com um montante que variou entre R$ 25 mil a R$ 30 mil reais por escola de samba, o Carnaval municipal se expandiu para o eixo Rio de Janeiro- São Paulo, e para os desfiles fora de época da fronteira gaúcha. "Tomou uma proporção muito grande porque, nesta edição, teremos em Passo Fundo o intérprete Gustavinho Oliveira, da Vila Isabel do Rio, e estamos conversando com outros da Grande Rio e Mangueira", revelou. Uma escola de samba de Cruz Alta, como mencionou ainda, também deve somar-se às locais para atravessar a avenida paralela ao Parque da Gare.


O sistema de público pagante também é uma das novidades para os foliões que quiserem acompanhar a passagem das alegorias. O camarote destinado às autoridades, presente em outras edições, será suspenso no Carnaval de 2020. Os vereadores e demais políticos que desejarem somar-se às festividades terão de desembolsar valores ainda não bem estipulados, mas que giram em torno de R$ 2 mil reais. O ingresso das arquibancadas, como ponderou o presidente da LIESP, teve o valor reduzido para o público em geral, no início da noite de terça-feira (21). Ao lado dos espaços destinados aos camarotes, cinco mil pessoas poderão acompanhar os desfiles com a compra antecipada de ingressos a R$ 10. "A gente só não faz mais porque não temos apoio", desabafou Felipe. "Até porque o Carnaval gera muito emprego. Desde as 45 pessoas em cada bateria, até os soldadores dos carros alegóricos", completou.



Serviço
Os ingressos para o jantar de apresentação dos sambas-enredo estão sendo comercializados a R$ 25,00, na Sociedade Recreativa Garotos da Batucada.

 

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