Giancarlo Camargo lança “Poesias de Cantar História”

Primeira empreitada do ator no mundo literário, o livro trabalha elementos de poesia, música e teatro com foco na musicalização para crianças

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A música e o teatro não são novidade na vida de Giancarlo Camargo. O ator, radicado em Passo Fundo, é conhecido de longa data na região pelas participações em grupos de teatro como o Viramundos, Ritornelo e Teatro Depois da Chuva, além de ter interpretado por uma década o personagem Mil Faces, no programa Mundo da Leitura, exibido pela TV UPF e Canal Futura. Como músico, em 2017, lançou ainda um disco duplo, com 28 canções compostas em parceria com o poeta Hique Barboza. A literatura, por outro lado, mostrou-se uma descoberta recente entre os trabalhos do artista, que acaba de lançar a obra “Poesias de Cantar História”, voltada ao público infantil.

Escrito enquanto Giancarlo montava uma contação de histórias para trabalhar a musicalização de crianças com elementos do teatro, da literatura e da poesia, o livro se destaca justamente pela interdisciplinaridade de artes tão presente na carreira do artista. Com “Poesias de Cantar História”, projeto financiado pelo Fundo Municipal de Cultura (Funcultura), Gian pretende levar o livro às escolas de educação infantil de Passo Fundo, para que as crianças possam ler e manusear o material antes de receber uma visita do próprio autor, que dará vida a todos os versos contidos nas páginas através da interpretação das músicas e da contação de histórias com o uso do teatro de bonecos.

O livro custa R$ 10 e pode ser adquirido diretamente com o autor pelo telefone (54) 9 9995-7275. A obra conta com ilustrações de João Lucas Chaves e correção ortográfica de Vanessa Hickmann. A contação tem figurinos e maquiagem de Betinha Mânica, bonecos de Carlos Mezeck De Sena, direção do Guto Pasini e conta, ainda, com o piano de Diego Granza.


ON: Essa é a sua primeira obra literária. O que te motivou a criá-la e quando ela foi escrita?

Giancarlo Camargo: Ela foi escrita entre 2018 e 2019. Eu queria montar uma contação de histórias simples, sem imagem teatral e em que eu estivesse sozinho, com o intuito de levar o projeto às escolas de educação infantil. Eu também queria que tivesse um cunho musicalizador, que trabalhasse bastante a questão da formação de indivíduos musicalizados. Li bastante coisas, principalmente Silvia Orthof, que é uma escritora e dramaturga brasileira de textos infantis – e eu gosto muito da linguagem poética que ela usa na maioria dos textos dela. Mas como eu não tinha achado nenhuma obra que fosse bem como eu pensava, com poesia focada na musicalização, eu pensei: “eu mesmo vou escrever”.


ON: Como aconteceu o processo de escrita?

Giancarlo Camargo: Quando me veio a ideia de juntar no livro a poesia e a melodia, que formam a canção, eu também tive a ideia de personificar os dois elementos. Dentro da história, eu denominei a poesia “Maria” e a melodia “João”. Eu vou tratando no livro sobre a Maria e o João e sobre questões relativas ao universo de cada um: da palavra, da rima, do verso. Quando falamos sobre melodia, por exemplo, eu falo que ela vive no ritmo e que cada ritmo vem de um lugar. Abordo também questões de intensidade e sonoridade. Esse processo de escrita foi se dando de forma paralela ao processo de montagem da contação de histórias. Então, conforme eu ia mirabolando as ideias para o espetáculo, eu ia escrevendo o livro e montando junto.

Depois de escrever, em 2019 eu me inscrevi no Prêmio Funcultura, na área de Literatura, e o projeto foi aprovado para ser realizado no início de 2020, com a ideia de levar o espetáculo para as escolas. Eu também tinha a ideia de fazer uma estreia bem legal, grande, convidar crianças... Mas em virtude da pandemia, os prazos precisaram ser adaptados. Eu também trabalho com bonecos na contação de histórias, mas não sou em quem confecciono, e a entrega deles atrasou por causa da pandemia. Isso tudo se somou, mas chegou em um ponto em que eu falei “não dá mais para postergar, vou lançar assim e fazer o lançamento de forma online”.


ON: Você fala sobre levar a contação de histórias, com o “Poesias de cantar história”, até as escolas. Como funcionará essa dinâmica?

Giancarlo: Minha ideia, a princípio, é mandar o livro até as escolas, para que as crianças tenham o contato e o manuseio da obra e possam ler em casa com os pais ou com os professores. Depois, eu vou até a escola com a contação dessas histórias. Como eu gosto de trabalhar com uma linguagem bastante intimista, eu acredito que o espetáculo será apresentado em turmas pequenas, de no máximo 50 crianças. É uma apresentação curta, de 35 minutos. A ideia é desse artista que chega na sala, conta a história, junta suas coisas e vai embora – inclusive, eu estou dentro da história, dentro do livro na história e sou o próprio contador.

Então, primeira chega o livro para que as crianças tenham contato com a história, depois o ator vai até elas, conta a história e mostra todo esse universo presencial, com o teatro de bonecos. É também quando a música ganha vida, porque praticamente todas as poesias do livro estão musicalizadas e inseridas no espetáculo. Ainda haverá, por último, a produção de um material arte-pedagógico, com base nos temas de musicalização, palavra e rima que eu trato na obra. Eu vou deixar ele nas escolas para que as professoras possam dar continuidade, trabalhando a musicalização e a contação de histórias com os alunos depois do espetáculo.


ON: Na tua percepção, qual a importância da arte e da literatura nesse momento de pandemia?

Giancarlo: A importância nesse momento de pandemia é fundamental. A gente tem ouvido muitas pessoas falarem como a música, por exemplo, está suprindo o vazio das pessoas. Essa pandemia veio nos mostrar tanta coisa, principalmente o quanto a gente precisa um dos outros. Muitas pessoas nem se dão conta do quanto elas precisam dos artistas, o quanto elas consomem esse trabalho, como a música está presente em várias tarefas do seu dia a dia. No ato da leitura, você também está dividindo a experiência com o autor, porque há sempre um pouco do escritor dentro da obra, ao mesmo tempo em que a leitura é um ato solitário. Você constrói as imagens e o universo no seu imaginário. Isso é, de certa forma, o que a arte faz: nos transpor, nos tirar do aqui, do agora, da “vida real” e nos colocar por momentos em outro lugar. É catártico. Então, está aí a importância da literatura e arte como um todo. Ela nos ajuda a ultrapassar esse momento difícil e diminuir o sofrimento.


ON: Qual trecho do livro você escolheria para apresentar como porta de entrada para novos leitores?

Giancarlo: A arte para mim é encontro. Se a mãe ou o pai pegar esse livro em casa para ler com a criança, haverá um encontro deles comigo. Ali é que a coisa se dá. Enquanto está escrito nesse papel, ele não é nada. Quando for aberto, é tudo. Como uma porta de entrada, eu citaria a poesia que encerra o livro e que lerei a seguir: “Então, nossa história virou canção. Bom que, assim, não tem mais fim. Porque canção vira abraço e cada abraço tem o tamanho de toda a esperança que há no mundo. No fundo, no fundo, o abraço é um pedaço da gente. Porque o nosso coração está para o outro com todo o carinho e cuidado. Assim, de mim, deixo aqui um pedaço. Enfim, me despeço, digo muito obrigado e peço: me dá um abraço”. É assim eu encerro a contação de história, ajoelhado, pedindo um abraço para as crianças. Ali a gente concretiza que fizemos, juntos, a nossa história. Juntando melodia e poesia.

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