Espetáculo inédito reúne três gerações do teatro passo-fundense

Projeto “O futuro está nos ovos” marca o reencontro de grupos que não dividiam cena desde 2008; estreia acontece no Rito Espaço Coletivo nos dias 8, 9 e 10 de setembro

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A peça conta com dez artistas no elenco e intérprete de Libras (Foto: Gerson Lopes/ON)A peça conta com dez artistas no elenco e intérprete de Libras (Foto: Gerson Lopes/ON)
A peça conta com dez artistas no elenco e intérprete de Libras (Foto: Gerson Lopes/ON)
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O reencontro do público com o teatro passo-fundense, após um ano e meio de pandemia, está cada dia mais próximo de acontecer. Unidos pela primeira vez desde o fim do projeto Viramundos, onde atuavam juntos até o ano de 2008, os atores dos grupos Ritornelo e Teatro Depois da Chuva reabrem as portas do Rito Espaço Coletivo, na próxima semana, para três apresentações inéditas do espetáculo “O futuro está nos ovos”. A montagem, que conta com dez artistas no elenco e intérprete de Libras em todas as apresentações, estreia nos dias 8, 9 e 10 de setembro, às 20h, com público reduzido em respeito aos protocolos sanitários. A entrada é gratuita mediante agendamento através da página @ofuturoestanosovos, no Instagram.

O evento, que marcará o retorno do fazer teatral na cidade e o reencontro de atores que há mais de dez anos não dividiam o mesmo palco, promete ser uma mistura de emoções, segundo os grupos. Os artistas contam que, embora estivessem sempre próximos, ajudando uns aos outros em diferentes espetáculos, essa é a primeira vez que todos eles entram em cena de maneira simultânea. “Nós vínhamos fazendo espetáculos em duas, três, no máximo quatro pessoas. Não conseguíamos reunir um elenco tão grande desde 2008, quando acabou o Viramundos”, resgata o ator Miraldi Junior, lembrando do extinto projeto que levava espetáculos de rua para os bairros do município afora e que, após seu fim, deu origem aos grupos Ritornelo e Teatro Depois da Chuva.

 A colega de cena, Ana Marques, complementa o raciocínio brincando que o elenco de “O futuro está nos ovos” reúne, no mínimo, três gerações do teatro local. A primeira delas é formada por Guto Pasini, Betinha Mânica, Marino Azevedo e Daniela Dal Forno. A segunda, por Giancarlo Camargo, Miraldi Junior e Ana Marques. Em seguida, Jandara Rebelatto e (a ainda mais recente) Eliane Balla, que se apresentará pela primeira vez em um espetáculo. O elenco é completado ainda pelo músico Augusto Dossa, responsável por executar toda a trilha da montagem durante as apresentações. Explorando os sons do violoncelo e da guitarra, ele assina as obras ao lado de Giancarlo. “São trajetórias que se cruzam”, descreve a integrante mais jovem.

Direção do espetáculo

E não é apenas a história dos atores que carrega uma longa jornada de entrelaces. O diretor do espetáculo, Marcio Bernardes, é também um dos fundadores do Teatro Depois da Chuva e do extinto Viramundos. Marcio, que mora na Bahia, já voltou como diretor de dois espetáculos do Grupo Ritornelo e, agora, vem realizando a direção do novo projeto de forma virtual. O diretor deve chegar a Passo Fundo apenas nesta sexta-feira (3), para uma imersão final com o elenco. “O Márcio esteve com a gente desde o começo da ideia desse projeto. Por tudo que ele representa para nós, queríamos muito que ele estivesse junto com a gente nessa montagem, mesmo com toda a dificuldade de dirigir à distância. Nós ensaiamos sempre com, no mínimo, três câmeras, para que ele possa nos ver por vários ângulos. Mas não é fácil com um elenco tão grande, sem nos ver de pertinho. O processo foi meio caótico”, revela Dani.

A emoção do reencontro

Apesar do caos dos preparativos, entre algumas falhas de microfone e outras quedas de sinal durante os ensaios dirigidos à distância, a conversa entre os grupos revela a animação pela oportunidade de se reunirem, mais uma vez, com os colegas de longa data e com o público. Para eles, mais do que fazer uma montagem de teatro, o momento equivale a uma celebração pela resistência, parceria e amor uns pelos outros e pelo fazer teatral, além de um momento de partilha dessa afetividade junto aos espectadores. “No fim, a gente acabou reduzindo os elencos ao longo do tempo por necessidade. A crise foi pegando. Isso é um fenômeno não estranho no teatro brasileiro, se a gente for olhar para a história. Quando há desenvolvimento econômico, os grupos conseguem manter elencos maiores. Quando a crise acontece, a gente precisa se virar do jeito que dá. Então, estar de volta e com um elenco tão grande, é muito bacana e desafiador”, relata Guto.

Para a atriz Dani Dal Forno, viver a reabertura das portas do Rito deve ser um momento muito contagiante para todo o grupo que, até então, vivia a angústia trazida pelas incertezas da pandemia. “Teve muito choro, muita lágrima e muita frustração sem saber como seria o futuro. Mas quando viemos aqui a primeira vez para ensaiar, com todos os cuidados e todo mundo com pelo menos uma dose da vacina, foi muito especial. Eu acredito que será muito emocionante estar de volta. Nós gostamos de ter o contato e sentir a energia do público. No online, você está jogando energia para o universo”, observa. A parceira de elenco, Jandara, acrescenta: “Como o Márcio diz: ‘vocês são atores que crescem com o público’”. Em consonância, Giancarlo prevê um momento em que um leque de energias devem se cruzar no ambiente.

Teatro do absurdo provoca reflexões sobre o mundo contemporâneo

Baseado em um texto do dramaturgo Eugène Ionesco, “O futuro está nos ovos” mostra a história de duas famílias, meio humanas e meio galinhas, que não aceitam o fato de que seus filhos, Jacques e Roberta, embora casados, não possuem o desejo de reproduzir e produzir. Desolados com a situação, os familiares veem a tensão crescer entre as duas linhagens enquanto não sabem o que fazer para que o apaixonado casal cumpra suas obrigações com o sistema. "As duas famílias querem acima de tudo reproduzir as tradições e os preconceitos. Mas nessa metáfora, o ovo aparece não só como descendente, e sim como uma forma de produção mesmo. É um pensamento consumista ao extremo com a própria vida. O ovo está gerando vida, mas ao mesmo tempo é um produto”, explica Miraldi.

Explorando a linguagem do teatro do absurdo, o espetáculo traz a Passo Fundo uma reflexão a respeito do comportamento humano, utilizando situações inusitadas ou ilógicas associadas ao cômico. A proposta de um espetáculo com essa linguagem, conforme o elenco, é inovadora para a cidade e região, além de uma novidade na própria trajetória dos grupos, que nunca haviam trabalhado com o teatro do absurdo. Segundo os artistas, nesta peça, ao entender a situação vivida pelos personagens, é possível encontrar semelhanças com a atualidade: falas e ações absurdas traduzem bem determinadas facetas do cotidiano atual e, por vezes, parecem ter sido extraídas desse mesmo cenário, sem modificação. “Estamos vivendo um período meio absurdo no mundo todo. O teatro do absurdo tem muito a ver com isso porque ele surge no contexto do pós-guerra, em 1950, como uma forma de criticar e mostrar o quão absurdas eram coisas como supremacia racial e a ideia de precisar produzir, produzir e produzir para reerguer a Europa. Se encaixa muito com o que a gente está vivendo agora, essa loucura da pandemia. Que coisa mais absurda é isso e, mais ainda, que absurda é a forma com que muitas pessoas trataram a questão”, reflete Gian.

A montagem se destaca ainda pelo respeito aos princípios da sustentabilidade, tanto no cenário construído por Guto Pasini, quanto no figurino assinado por Betinha Mânica. “A grande maioria dos elementos foram feitos com materiais reaproveitados. Tem até muito a ver com o próprio texto ser depois da guerra, com as pessoas reconstruindo o mundo a partir do que sobrou”, avalia o ator Marino. “A sustentabilidade é um hábito que eu tento manter para não gerar mais lixo ainda nesse mundo que já produz tanto excesso”, ressalta a figurinista.

Espetáculo + bate-papo

Aprovado no edital Criação e Formação – Diversidade das Culturas, o espetáculo “O futuro está nos ovos” é realizado com recursos da Lei Aldir Blanc nº 14.017/20, em uma parceria da Secretaria da Cultura do Estado e da Fundação Marcopolo. Além das três apresentações no Rito Espaço Coletivo nos dias 8, 9 e 10 de setembro, o projeto prevê ainda uma bate-papo após as apresentações. Na oportunidade, o público poderá conversar com o elenco e tirar dúvidas sobre os bastidores da produção e a realidade vivia pelo teatro nos dias de hoje. As apresentações acontecem sempre às 20h, com público restrito a 20 pessoas em decorrência da pandemia. Para garantir a entrada, é necessário reservar um espaço com antecedência. Mais informações estão disponíveis na página @ofuturoestanosovos.


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