Grupo Ritornelo celebra 15 anos NA cena cultural de Passo Fundo

Fundado em 2010 por Augusto Pasini, o coletivo mantém repertório autoral, promove oficinas e realiza festivais no Espaço Rito

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Foto: Gerson Lopes/ONFoto: Gerson Lopes/ON
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Com o encerramento das atividades do grupo teatral Viramundo, o ator Augusto Pasini se uniu a mais quatro artistas em um grupo de estudos. Dessa parceria nasceu a adaptação de um clássico da literatura francesa, O Menino do Dedo Verde, que estreou nos palcos em 2010. A partir dessa montagem, o grupo responsável pelo espetáculo passou a ser conhecido como Grupo Ritornelo — um coletivo de artistas dedicado à criação de espetáculos acessíveis e instigantes para todos os públicos.

Com uma proposta voltada especialmente ao teatro de rua, o Ritornelo levou suas produções para praças, escolas e eventos públicos, incorporando o ambiente e a improvisação como parte da dramaturgia. Em 2025, o grupo celebra 15 anos de trajetória, com mais de dez espetáculos produzidos e uma história marcada pela resistência, pela coletividade e pela criação de um espaço próprio, fruto de uma parceria com a Fundação Lucas Araújo.

Espaço Rito: um ponto de cultura em Passo Fundo

Um dos grandes marcos recentes do grupo é a criação do Espaço Rito. “Esse espaço aconteceu meio por acaso”, relembra Augusto Pasini, o Guto. “A gente sempre teve o desejo de ter um lugar próprio, desde o tempo do Viramundo, quando estávamos acostumados com a estrutura da UPF. Tivemos uma sala no IFIBE até 2016, mas depois que eles se reestruturaram, tivemos que sair. Então veio a parceria com a Fundação.”

A oportunidade surgiu quando Luiz, representante da instituição, convidou o grupo para uma apresentação e manifestou o interesse em manter atividades culturais regulares no local. “O pavilhão estava vazio, então fizemos a parceria, oferecemos oficinas e intervenções em troca do aluguel do espaço”, explica Guto.

Com o novo endereço, o grupo consolidou sua atuação, tornando-se referência não apenas no teatro, mas na cultura de Passo Fundo. O Espaço Rito se transformou em um polo de convivência artística, reunindo espetáculos, oficinas e eventos que ampliaram o alcance do Ritornelo.

Ainda assim, Guto reconhece os desafios de manter o espaço ativo. “Gerir um espaço cultural não é simples. Falta compromisso, tanto das pessoas quanto das empresas, que em geral só apoiam via lei de incentivo”, afirma. O artista também ressalta a importância da Lei Rouanet, frequentemente alvo de desinformação. “A gente sempre usou a Rouanet, apesar dos pesares. Ficou essa pecha de que quem usa é ladrão ou vagabundo. Mas as pessoas não conhecem a lei”, lamenta.

A cena teatral e o legado do grupo

Ao falar sobre a cena teatral de Passo Fundo, Augusto e Miraldi Júnior, companheiro de trajetória no grupo, demonstram profundo conhecimento e envolvimento com o movimento artístico local. Eles destacam que muitos grupos atuais ainda são compostos por artistas da geração anterior e apontam o teatro estudantil como base essencial para a renovação.

“Quando comecei, todas as escolas tinham aula de teatro”, recorda Miraldi. “Hoje ainda existe, mas perdeu aquele caráter de festival, de movimento estudantil forte. Era o teatro das escolas públicas, que democratizava o acesso. Agora está mais presente nas particulares.”

Para eles, o Espaço Rito ajudou a ampliar as possibilidades criativas não só nas artes cênicas, mas também na música, nas artes visuais e em outras expressões culturais.

Uma parceria de duas décadas

Com humor, os dois artistas comentam a convivência de mais de 20 anos. “A gente briga direto”, admite Miraldi. “Hoje de manhã mesmo brigamos, e estou magoado”, brinca. “Mas é como um casamento: a gente se ama, convive o tempo todo”.

A relação de parceria e conflito, segundo eles, é parte natural do processo criativo. “O teatro é uma profissão difícil. A gente escolheu isso. Não dá para culpar ninguém”, diz Miraldi, citando Jean-Pierre Sarrazac: “O teatro está em crise desde o dia em que nasceu.” Guto complementa: “Desde o início ele é contestado — se vai ter futuro, se vai acabar. É uma arte marginalizada, mas que sobrevive.”

Para os dois, o teatro se diferencia de outras linguagens pela presença viva. “O teatro é artesanal. É o encontro real entre pessoas. Enquanto o cinema passa por filtros — câmera, edição —, o teatro é direto, ao vivo”, explica Guto.

Essa filosofia se reflete na essência do grupo: o teatro como jogo. “Jogar é a relação viva entre ator e espectador. Se falta luz e as crianças continuam atentas, é porque o jogo está acontecendo”, diz Guto. “Alguns puristas dizem que não se pode quebrar o personagem, mas para nós o importante é manter a relação viva.”

Celebrações de 15 anos

Para marcar a data, o Espaço Rito recebeu, entre os dias 9 e 12 de outubro, uma programação especial com apresentações de espetáculos que marcaram a história do grupo, como Faixa de Graça, Chicão: o Pescador de Livros, Rosa dos Rumos e O Sumiço da Consciência.

As sessões, que reuniram públicos de diferentes idades, incluíram apresentações fechadas para estudantes do ensino fundamental e outras abertas à comunidade. O espaço ficou lotado durante todo o fim de semana, reunindo artistas, produtores culturais e admiradores do teatro local — todos unidos para celebrar os 15 anos de uma trajetória que segue inspirando e fortalecendo a cena cultural de Passo Fundo.

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