Passo-fundense, com muito orgulho de suas origens, Ronaldo Saggiorato conquistou o mundo com um contrabaixo. Muito além da sustentação rítmica e harmônica, as seis cordas de seu baixo vibram talento. São sonoridades que dialogam em todas as línguas. Baixista, multi-instrumentista, compositor e arranjador, Gringo tem trabalhos vinculados aos mais importantes músicos do Brasil e do exterior. Nesta sexta-feira (13), ele faz um workshow no Teatro Múcio de Castro, às 20h, com os convidados Felipe Alvares, Giu Sanderi e Marcelo Pimentel. “O formato workshow é novo para mim. Vamos tocar, mas também conversar. A espontaneidade dará o tom”, adiantou.
Gringo ou Ronaldo?
“Ronaldo Gringo Saggiorato! Aqui em Passo Fundo é mais Gringo. Na Europa é Ronaldo”, respondeu na tampa. “O Gringo é coisa dos amigos, do Alegre, Guinha (Ramirez), um desse time.” Num pizzicato, contou sua história. “Nasci em Rincão da Esperança, em 1961. A música veio de família. O pai, caminhoneiro, toca violão e gaita. A mãe canta, um tio é gaiteiro e um primo tocava baixo. Vim para a cidade com uns 10 anos, conheci a rapaziada da música na Escola Salomão Iochpe. A professora Nelly (Wentz) levava o Alegre Correa e eu para tocar nas escolas.”
Esquina do Perfume
Ali começou uma forte amizade e parceria afinadíssima. “Os encontros eram na casa do Alegre. No outro lado da rua tinha a Esquina do Perfume.” Sim, ali borbulhou o Clube de Esquina de Passo Fundo. “Alegre, Xanico, Tibério, Cascão, Nilo, Itamar... Era depois do almoço e aquilo virava. Ou mesmo à noite, tocando e trocando ideias. O Nilo, que era professor, dava as dicas de contrabaixo. Me indicou para uma banda. Engrenei e tocava bailes e reuniões dançantes.” Pronto, o Gringo já era músico.
Jazz made in Passo Fundo
A vida de artista é mutante, e a primeira escala de Ronaldo foi em Erechim. “Nos levaram para integrar a Banda Ipanema. Eles tinham instrumentos bem melhores que os nossos. Então, em paralelo com os compromissos da banda, montamos um quarteto instrumental com o Alegre, Dudu Trentin e o Jua.” A turma da Esquina do Perfume já exalava a fragrância do jazz. Um jazz made in Passo Fundo que, desde então, leva excitantes experiências sensoriais através da música pelo mundo.
Nêutrons e Borghettinho
Florianópolis foi a próxima escala. Ronaldo Saggiorato integrou a icônica Banda de Nêutrons. “Letieres Leite, Joel, Alegre... Três ou quatro anos e voltei a Passo Fundo. Depois, Porto Alegre com o Circuito Emocional, tocava em bares e festivais.” Novo salto: Gringo integrou a banda de Renato Borghetti. “Experiência incrível, acho que uns quatro anos, Brasil e Europa. Eu vinha da música mais popular e ingressei no instrumental gaúcho. Gravamos discos, LPs e CDs. Foi uma grande experiência.”
Partiu Viena
A parceria com Alegre Correa, que começou nos bancos escolares, deu um salto para a Europa. No final dos anos 1980, uma turma de músicos brasileiros foi de mala e cuia para Viena. Ronaldo Saggiorato estava na leva. “Com o Alegre, Fernando Paiva, Dudu Trentin, Marcelo Onofri, Cláudio ‘Frazê’ e Laurinho Bandeira montamos o Grupo Mato Grosso. Foi minha primeira fase na Europa, que durou uns três anos. Logo, começou a se formar um núcleo de músicos instrumentistas.”
Disco Infância
Com o Alegre Correa Sexteto, foi lançado o disco Infância, que é um marco para Saggiorato e sua turma. “Abriu as portas para a música instrumental na Europa. A gente se misturava com o pessoal do jazz e abriu a brecha para mostrar a música brasileira que a gente faz.” A base era Viena, mas a partitura geográfica foi abrangente. “A Áustria inteira, Suíça, Alemanha, Itália, Tchecoslováquia e aí foi. Voltei ao Brasil e logo retornei à Europa. Disco novo e fiquei por lá.”
Profissionalismo
O intercâmbio internacional só tem a acrescentar. Na área musical, a troca de experiências é mais complexa e, portanto, mais ampla. “É outro nível profissional. O circuito exige organização, da partitura aos horários. Eu trouxe muito disso tudo na bagagem. Aqui também o momento é outro. Antigamente, só tinha ‘Os Invencíveis’ (conjunto dos anos 1970). Hoje tem muito mais, são diferentes núcleos de músicos bons. E, também, bastante gente estudando”, completou.
O enlace entre as cordas de aço e as cordas vocais

Na volta ao continente europeu, Ronaldo conheceu a cantora Izabel Padovani. Natural de Campinas (SP), ela estava em Viena e participou do disco, no qual o passo-fundense explora uma fase inicial com o baixo de seis cordas. “Um duo bem inusitado, baixo e voz; o CD nos abriu as portas na Europa.” E, ainda, os talentos entraram em lua de mel. “Já são 25 anos de duo”, diz Ronaldo sobre o casamento com Izabel.
Prêmio Visa
“Em 2005, Izabel passou na triagem do Prêmio Visa de Música. Voltamos ao Brasil, pois era uma série de apresentações. E ela foi passando em todas as etapas. Ao final, levou o prêmio de melhor cantora. Um prêmio importantíssimo. Aí ficamos por aqui. Circuito do Sesc, oficinas em Curitiba, Ouro Preto, Campinas e São Paulo. Já são vários discos feitos aqui no Brasil.” Agora, a base é Campinas, onde Izabel é professora de canto em conservatório.
Discos e mais discos
Das amizades da Esquina do Perfume aos Kumpel garimpados na Áustria, há uma família de músicos que gravita no entorno do Gringo. Ele caprichou nos arranjos do CD Desassossego. Além de Nenê, Marcelo Onofri e outros parceiros conhecidos, tem Lara Giziati ao violoncelo. Depois, Aquelas Coisas Todas, com obras autorais. E, obviamente, não poderia faltar Raul Boeira, que ganhou Povaréu, com Izabel em quarteto formado com Gringo, Ricardo Matsuda e JP.
Na alça do baixo
Já está na mira um novo projeto de Ronaldo Gringo Saggiorato e Izabel Padovani. “O projeto é um quarteto: faço baixo de seis cordas, a Izabel a voz, Ricardo Matsuda na viola e a Patrícia Gatti no cravo.” A combinação musical promete inovação nos arranjos, transitando da marcação do baixo ao toque barroco do cravo. E o sorriso confiante do arranjador Gringo antecipa a qualidade de mais um trabalho.
SERVIÇO:
Workshow com Ronaldo Saggiorato
Um formato de aula-show com solos de baixo, revezamento de instrumentistas no palco, interação com o público e conversa sobre as técnicas do baixista. Além de Saggiorato, participam os convidados Giu Sanderi (sax), Marcelo Pimentel (percussão) e Felipe Batistela (baixo).
Data: 13/02/2026 – Sexta-feira
Local: Teatro Múcio de Castro
Horário: 20h
Ingressos: R$ 40,00


