OPINIÃO

A mulher que tinha alma de artista

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Na tarde gris da última sexta-feira, 23 de maio de 2025, quando Liciane Toazza Duda Bonatto morreu, os plátanos da Praça Tamandaré, a poucos metros de onde o seu último suspiro fora registrado, poeticamente, como, eu imagino, ela gostaria, aceleraram a queda das folhas e deram o sinal que um quase final de outono e a sua despedida de Passo Fundo haviam chegado. Afinal, quem foi essa mulher, cujo talento artístico e sensibilidade poética, nela, eram predicados indissimuláveis?

Liciane Bonatto é filha do casal Leonildo Almerin Duda e Adélia Irma Toazza Duda (ambos in memoriam), sendo irmã do médico cardiologista Norberto Toazza Duda (in memoriam) e de Beatriz Toazza Duda Hall (agrônoma/bancária). Deixou a prantear a sua memória o geólogo e professor Daltro Bonatto, com quem teve dois filhos: Marcos Vinícius, publicitário, que reside no Canadá, e a odontóloga Fernanda Duda Bonatto, atualmente vivendo em Atlanta, nos EUA.

Dona de sensibilidade artística e técnica apurada, Liciane Bonatto foi figura de destaque nas artes plásticas de Passo Fundo. O talento inato, possivelmente, havia herdado do pai, que, como ela costumava frisar, tinha como hobby desenhar. As suas pinturas foram vencedoras de inúmeras edições do Festival de Arte & Cidadania da Embrapa. Também se dedicou à criação de logomarcas para eventos (ilustrou o material publicitário de muitos congressos da área de Agronomia, nos últimos 40 anos) e à produção de capas de livros e telas de softwares (maioria editada pela Embrapa). Eu destaco a criação da logomarca do Jornal do Plantio Direto, que ela fez a pedido de Gilberto Borges (in memoriam), no final dos anos 1980, e a imagem que, anualmente, identifica as reuniões da Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale, composta pelo mapa do Brasil e uma espiga de trigo estilizada e sobreposta transversalmente no território nacional.

Mais além das artes plásticas, Liciane também se aventurou no mundo das letras (poesia e conto). A primeira poesia que escreveu, “Canto”, ficou entre as quinze selecionadas no projeto “Poemas nos Ônibus” realizado pela empresa Coleurb de Passo Fundo. Por ter sido o seu primeiro poema, “Canto” foi muito significativo para Liciane. A inspiração, segundo ela, “surgiu logo depois do término de um ensaio do coral da Embrapa Trigo. Saímos em três pessoas e continuamos a cantar pelo corredor. Nossas vozes se projetaram de uma forma relativamente mística causando um encantamento às pessoas que estavam no andar superior. Acabei registrando o momento em forma de poesia”. Eis alguns versos de “Canto”: Em cada canto,/ Há um encanto./ Mas, qual é o canto/ Que tenho que cantar/ Pra encantar o meu canto?/ Pra fazer do meu canto/ Um encanto? (...) Por isso canto/ O meu canto,/ Aqui do meu canto./ Enquanto canto/ Me encanto/ E sou feliz. Outro poema da Liciane, que reflete muito da personalidade dela, é “Lua”: Vesti-me de lua,/ Em meus momentos escuros;/ Mas vi que em mim não havia ninguém./ Só névoas e fios de esperança/ Envolviam o que restava de mim.// Tinha me vestido de lua minguante.../ Pena!/ Por que escolhi essa lua?! Eu destacaria a epígrafe, selecionada por ela, do poema “Olhares”: Através do olhar transmitimos o que trazemos na alma...E os versos finais: Olhares, olhares!/ ah! esses olhares!

Liciane Bonatto foi artista na mais completa acepção da palavra. Considerava como finalidade da arte: “transmitir harmonia, paz, energia, alegria, beleza, promover o encantamento. Caso o espectador ou leitor, depois de entrar em contato com um trabalho artístico, sair igual ou mais alegre, ou mais em harmonia consigo mesmo e nunca deprimido, o objetivo foi atingido. Já se tem muitas razões na vida para se ficar triste, de vez em quando”, como ressaltou em algumas das muitas conversações que eu tive o privilégio de compartilhar com ela.

Liciane era formada em Desenho e Plástica, pelo Instituto de Artes da Universidade de Passo Fundo (UPF), na turma de 1976. Na Embrapa, onde a conheci, começou a trabalhar como Programadora Visual em 26 de janeiro de 1977. E essa função ela exerceu, com maestria, até a aposentadoria em 28 de setembro de 2009. Na cena artística local, atuou na Confraria das Artes, seja no espaço da Gare ou emprestando o seu talento para embelezar, através de pinturas, espaços públicos da cidade, como as escadarias da Brahma, da Rua Independência e do Espaço Cultural Roseli Doleski Pretto, entre outros locais. Era uma pessoa engajada, discretamente, como convém, com as causas sociais. Não se furtava de dizer o quanto apreciava a companhia das amigas Graça, Carla, Ellen e Gisele e os chás de final de semana que, regularmente, compartilhavam.

Eu, admito, fui um privilegiado. Liciane, a meu pedido, generosamente, ilustrou publicações, assinou capas de livros, da Revista Água da Fonte (edições número zero, dezembro de 2003, e a alusiva aos 75 anos da Academia Passo-Fundense de Letras, novembro de 2013) e, recentemente, presenteou-me com um exemplar do livro Los Genios, que encomendou ao filho Marcos no Canadá, e cuja dedicatória muito me envaidece.

Liciane era leitora contumaz dessa coluna de O NACIONAL. Não raro, lia e enviava comentários. Assim, ouso imaginar, ainda que seja pouco provável, que ela, onde estiver, possa ler esse texto e que, se não sabia, tome ciência do quanto foi querida por todos que a conheceram.

Professor Daltro, Marcos e Fernanda, a Liciane não passou em vão aqui pela Terra. Ela, com o seu jeito de ser e com o seu toque de arte, deixou marcas indeléveis por onde passou. Nossos respeitos à memória dessa magistral artista passo-fundense. Que ela em paz descanse!

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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