OPINIÃO

Todos meus mortos

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Sou um sujeito de poucos mortos. Quase todos na primeira infância, quando três dos meus quatro avós se dispersaram da memória como vagas lembranças.

Do meu avô materno, lembro apenas que ocupava uma poltrona de canto. Não sei sua idade, mas sei que foi o homem mais velho que já viveu neste plano — tempo o bastante para que seus neurônios, aos poucos, desencantassem da tolice de promover sinapses por qualquer pretexto. Viveu os últimos dias em demência plena e serena, vestindo sua velha farda imaginária de major por debaixo do pijama.

Minha avó nunca o perdia de vista. Até que perdeu os dois: ele, de súbito, e a visão, aos poucos. Sempre que a lembro, penso em Úrsula Iguarán, matriarca dos Buendía; sempre que releio Cem Anos de Solidão, Úrsula me lembra dona Clodomira.

Em seu caso, só não sei quem se apagou antes — as retinas ou a vida.

*

Minha primeira grande perda aconteceu no início da vida adulta. Eu dividia um apartamento na Moron com o Gustavo, meu amigo de infância. Queria mudar para o Rio; ele recém voltara de uma tentativa frustrada em Portugal.

Ao visitá-lo no Porto, bebemos todo o seu patrimônio líquido — um Fiat Uno repassado às pressas por um punhado de euros — e regressamos juntos a Passo Fundo. Três meses depois, poucos dias antes da minha mudança definitiva, ele conseguiu um emprego no Paraná.

Nos encontramos em Curitiba, pernoitamos num quarto imundo, na companhia do Nicola Giordano. Na manhã seguinte, eu seguiria de carro para o meu destino; ele embarcaria num ônibus para outro sentido. Era uma manhã fria de 31 de julho de 2001 quando nos despedimos num abraço de palmadas estaladas e risos nervosos.

Ainda haveria tempo para que ele arrumasse uma noiva em São Paulo e prosperasse na firma, mas aquele abraço desengonçado nunca mais se repetiria.

Vinte anos depois, de volta à cidade, Josiane nos mostraria em trajes de gala, numa fotografia amarelada de seu baile de debutante. No retrato, apareço sorridente, contornando com o braço a sua cintura, num gesto premonitório que hoje suscitaria severas e merecidas censuras. Do seu outro lado, aparece Gustavo, com o mesmo sorriso de petulância juvenil de antes e sempre.

Quem diria que só nos reencontraríamos trinta anos antes.

*

Pisquei algumas vezes pro beleléu. Numa delas, a moça da foice mordiscou os beiços sob o capuz preto.

Fui salvo a tempo por um velho conhecido. Numa dessas bonitas coincidências que confirmam os amparos circulares, fui ter aos cuidados do pai de Gustavo.

Era uma tarde de 4 de julho, em seu consultório, quando me percebi em definitivo fora de risco. À revelia da dinâmica de médico e paciente, a data nos reunira em mais uma coincidência: o aniversário do seu filho perdido — meu querido amigo.

*

Por mais de dois anos, Dra. Adriana foi incansável em analisar por que a vida me tinha de ser tão superlativa e aflita, alternando sempre entre os polos da euforia e da analgesia. Foi por ela que entendi que o bem-estar não se comprava no atacado imediato das artificialidades prescritas, mas no varejo paciente das pequenas porções de felicidade colhidas a fresco.

Sofreu o apagamento lento de uma doença brutal, sem nunca arredar dos cuidados com seus pacientes. Viria a falecer precocemente numa quarta-feira, a mesma reservada aos nossos encontros, no que me pareceu um golpe baixo do aleatório sobre o divino.

Certa feita, presenteou-me com um retrato meu antigo, redesenhado em grafite — talvez para que me reencontrasse com meu passado recente.

*

O Roberson Azambuja mantém em sua casa uma parede revestida de fotografias, onde ostenta sua coleção de amigos — ainda maior do que a de pastas de cabelo e carros antigos.

Numa delas, destoa meu semblante vago e inchado, cujo aspecto inflamado pelo sobrepeso medicamentoso contrasta com o olhar exausto e perdido. A boca que esboça um sorriso soa mais cínica do que presente. Mas, em lugar do constrangimento estético, sinto algum orgulho por aquela imagem exposta à posteridade maliciosa dos olhares alheios.

Afinal, de todos os meus poucos mortos, consegui a façanha de sobreviver a mim mesmo.

*

Desde então, tenho me mantido ileso a qualquer tipo de comprimido de efeito paliativo.

No máximo, um leve baratinho na colonoscopia — mas apenas socialmente, às sextas-feiras.

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