As chuvas registradas nos últimos dias em Passo Fundo, e em diversos municípios da região, trouxeram alívio ao campo. Após meses de estiagem, a precipitação contribuiu para repor parte do déficit hídrico e começa a mudar o cenário em áreas atingidas pela seca. Embora tenham chegado tarde para as lavouras de verão, as chuvas são consideradas essenciais para a recuperação de pastagens, abastecimento de água e preparação do solo para as culturas de inverno, como trigo e aveia.
Segundo o supervisor regional da Emater/RS-Ascar e responsável pela área de culturas em Passo Fundo, Oriberto Adami, os benefícios da chuva já são percebidos, especialmente no planejamento para os próximos meses. “Mesmo que para a cultura de verão chegou um pouco tardio, nós temos aí o leite, as pastagens, a questão de água para os animais, então a chuva é fundamental. Recompõe os açudes, ajuda quem não tem poço artesiano e prepara o solo para maio, junho, julho, quando começam os plantios de inverno”, detalha.
Perdas na soja
Ainda que a atenção se volte para o próximo ciclo, a safra atual de soja segue como ponto de preocupação para produtores. De acordo com Oriberto, a colheita avançou rapidamente nos últimos dias. “Chegamos aí numa estimativa próxima de 80% da área já colhida. Alguns municípios avançaram ainda mais, e a expectativa é que, até a próxima semana, a colheita seja finalizada”, explica.
A produtividade, no entanto, ficou aquém do esperado. A média atual gira em torno de 40 sacas por hectare, uma quebra de cerca de 35% em relação à estimativa inicial de 63 a 64 sacas por hectare. O resultado é reflexo direto da estiagem que afetou o ciclo da cultura, antecipando a maturação e prejudicando o desenvolvimento das plantas. “O ciclo foi antecipado pela falta de umidade, e isso reduziu o potencial produtivo. Temos situações muito distintas, com áreas que receberam chuvas em janeiro e fevereiro conseguiram manter boas produtividades, com colheitas de 65 a 70 sacas por hectare. Mas outras estão colhendo apenas 25 a 30 sacas”, relata Oriberto.
Entre os municípios mais afetados pela estiagem estão Camargo, parte de Marau, Vila Maria e Ernestina. Por outro lado, localidades como Pontão, Lagoa Vermelha e Ciríaco foram beneficiadas por chuvas mais regulares e apresentaram produtividades melhores.
Rentabilidade comprometida
Mesmo com o avanço da colheita, o cenário financeiro para os produtores não é animador. “Com a média em torno de 40 sacos por hectare, em muitos casos a produção mal cobre o custo de implantação da lavoura. Para quem paga arrendamento, então, a dificuldade é enorme. Há relatos de produtores que terão uma média de apenas 20 a 22 sacas por hectare em áreas arrendadas”, destaca o supervisor da Emater.
Essa realidade tem deixado a rentabilidade praticamente nula, e muitos agricultores já se preparam para um ano difícil economicamente. A conclusão da colheita nas próximas semanas permitirá que os números finais sejam apurados com mais precisão, mas Oriberto antecipa: “A produtividade pode variar um pouco, mas não deve mudar muito o quadro atual”.
Esperança no trigo e nas forrageiras
Com o ciclo da soja encerrando, a expectativa recai agora sobre as lavouras de inverno. Com as chuva dos últimos dias, umidade do solo se torna mais propícia para a implantação das culturas que começam a ser semeadas entre maio e julho, como trigo, aveia branca e aveia preta. “A chuva normaliza essa questão futura”, diz Oriberto. A melhoria das condições hídricas também favorece a produção de leite, o crescimento de pastagens e a recuperação das reservas de água, essenciais para a pecuária.


