Enquanto alguns derrubam, outros restauram e/ou revitalizam. A paisagem urbana e a memória da cidade agradecem. Um belo exemplo é de um antigo sobrado no centro de Passo Fundo. Uma revitalização onde a técnica arquitetônica preservou um pedaço da história da cidade. Na esquina da Avenida Brasil com a Benjamin Constant, uma edificação de 1927 cambaleava para a demolição. Após adquirir a área, o investidor solicitou uma análise do que poderia ser feito no local. A proposta dos arquitetos Diego Rigo e Guilherme Ribeiro obteve o aval do novo proprietário. Prédio revitalizado e, agora, o “Sobrado da Brasil” começa uma nova história. Agora, ali na Brasil Leste número 01, vai funcionar o Restaurante Don Antonio.
Derrubar ou preservar?
“O prédio não é tombado pelo Patrimônio Histórico”, enfatiza Diego Rigo. Isso significa que poderiam, simplesmente, derrubar tudo. Afinal, quem aplicou recursos em uma área quer resultados. “Foi em 2023. Havia 5 negócios (lojinhas) no térreo e uma escola de danças no primeiro piso. A avaliação inicial dava as opções de demolir tudo ou revitalizar, o que não é uma restauração ao pé da letra. Se fosse para erguer um novo prédio, pela área existente, o recuo exigido seria enorme. Elaboramos o projeto de revitalização e o investidor aprovou”, conta com satisfação o arquiteto.
Recuperar e inovar
“O prédio apresentava muitas modificações feitas pelos inquilinos. Havia alterações nas características originais, como aberturas e ornamentos”. O revezamento de usuários e múltiplas atividades, deixaram transmutações no sobrado. Em 2023, já com 96 anos, também carregava as marcas do tempo. “Trocamos toda a estrutura do assoalho do primeiro piso, que estava comprometida. Também intervimos nas sacadas, em péssimas condições estruturais. O telhado foi suprimido e, ainda, tivemos que refazer o reboco das paredes externas”. Além disso, o arquiteto explica que o Sobrado da Brasil ganhou novas plantas elétrica e hidráulica, além de sistema de prevenção de incêndio.
Escorar e escavar
Quem passou pelas proximidades da Escola Protásio Alves, cruzou pela Brasil, Benjamin ou Praça Tocchetto, certamente viu as paredes do velho prédio cercada por estruturas metálicas. Mistério que Diego elucida. “Foi para escoramento, seria uma analogia à osteossíntese na ortopedia, onde os metais estabilizam fraturas. No nosso caso, foi para manter as paredes enquanto escavamos cerca de 5 metros para obter um subsolo onde estão as vagas de estacionamento.”
Subir e aumentar

A nova imagem do Sobrado da Brasil permite algumas interessantes reflexões. Há um grande investimento no local que, podemos estimar na faixa de R$ 3 milhões. Mas o arquiteto não fala sobre esses números. Prefere a soma de três pavimentos, o que foi possível ao colocar uma estrutura metálica no local onde estava o velho telhado. “Ganhou uma nova área, onde respeitamos o recuo exigido para obter mais três andares. A estrutura, em metal e vidro, propicia dois pisos livres e um piso para reservatórios de água e área técnica”. Com mais espaço, também será maior o retorno para o investidor.
Preservar e atualizar
Embaixo, um prédio inaugurado em 1927 com influência neoclássica e características coloniais. Em cima, metal e vidros. “É interessante para haver o entendimento do que era o passado e o que é o presente”, justifica Diego Rigo. Além do valor histórico, há o valor econômico. “Em longo prazo, cai ter um valor imobiliário ainda maior, porque é uma exceção e está em localização privilegiada”. Acessibilidade e segurança: circulação vertical reorganizada para garantir, escada e elevador enquadram o edifício às exigências contemporâneas.
Adaptar e pertencer

“Na paisagem urbana, há um senso de pertencimento de quem passa por ali. Não é apenas uma edificação, pois tem história.” E, como estamos falando do Centro Histórico de Passo Fundo, o arquiteto dá ênfase à adaptação. “É um exemplo da capacidade de se adaptar: atualizar e se expandir conservando a história”. Aos 43 anos, Diego Schleder Rigo é passo-fundense e graduado em arquitetura pela UPF. “Fui aluno e tive como orientador o professor Nino Machado, que é uma grande referência. Trabalhei com ele”, diz em tom orgulhoso. Certamente, a lapiseira de Nino deixou traços na consciência preservadora de Diego.



