Uma década de Ritornelo

Grupo passo-fundense de teatro completa dez anos de vivências em cima do palco

Por
· 5 min de leitura
(Foto: Gerson Lopes/ON)(Foto: Gerson Lopes/ON)
(Foto: Gerson Lopes/ON)
Você prefere ouvir essa matéria?

Entre paletas de maquiagem e espalhafatosas roupas de palhaço, o ânimo depositado pelos atores do Grupo Ritornelo de Teatro no processo de caracterização de seus personagens para mais uma tarde de ensaios denuncia a paixão de quem, há dez anos, dedica a vida à arte dos palcos. Sobrevivendo às dificuldades impostas pelo fazer teatro fora dos grandes centros, o grupo passo-fundense completou no último mês uma década de histórias contadas para (e junto) a comunidade local.

O grupo surgiu em outubro de 2010, das mentes inquietas de um coletivo de artistas que trabalharam juntos no extinto Grupo Viramundos, projeto vinculado à Universidade de Passo Fundo e encerrado pela instituição de forma abrupta no ano de 2008. Nos dois anos em que passaram órfãos da iniciativa que os ajudou a levar a arte teatral pelos bairros do município afora, o desejo de dar continuidade à trajetória de produção teatral do antigo grupo serviu de alimento para a concepção de um novo projeto. O empurrãozinho a mais, necessário para que o Grupo Ritornelo de Teatro saísse do papel, aconteceu durante oficinas de um projeto de pesquisa coordenado pelo professor Gerson Trombetta.

Dos primeiros membros a formarem a trupe – Tarso Heckler, Guto Pasini, Ariane Portela, Amanda Scharr, Mateus Portela, Kelli Daron, Giancarlo Camargo e Ana Marques –, o único remanescente até hoje é Guto Pasini, responsável por dar nome ao grupo. “Na época, eu cursava Filosofia e estava lendo Mil Platôs, dos filósofos Félix Guattari e Gilles Deleuze, que aborda o conceito de Ritornelo. Esse nome tem tudo a ver com nosso desejo de fazer teatro, no sentido daquilo que tem potência para continuar existindo, retornando transformado”, explica.

No novo grupo, a primeira peça a ser estreada pelos colegas de estrada aconteceu no ano de 2011. Adaptada do livro homônimo de Maurice Duron, “O Menino do Dedo Verde” narra a trajetória de Titsu, um menino com poderes especiais que tem a possibilidade de transformar a triste realidade dos ambientes áridos, secos e sem vida em flores, plantas e demais tipos de espécies vegetais. “Logo no primeiro ano, ganhamos um edital dos Correios e Myriam Muniz, que possibilitou fazer o espetáculo com todas as condições possíveis e circular em diversos estados”, resgata o fundador. Ousa-se dizer que o pontapé não poderia ter sido melhor. O grupo estima que, somente com esse trabalho, tenham atingido mais de 30 mil pessoas em suas mais de 100 apresentações pelos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.


Passagens marcantes

Embora a maior parte dos membros originais tenha seguido outros rumos, os que vieram a somar o coletivo nos anos seguintes em nada abandonaram a essência que permeia o Ritornelo desde as primeiras apresentações: a do teatro popular. Quem acompanha Guto, hoje, em espetáculos acessíveis e pensados para estimular o pensamento crítico do público independente da experiência cultural de cada um, são os atores Miraldi Junior, Jandara Rebelatto, Dani Dal Forno, Paulo Braga, Ricardo Pacheco, Carlinhos Tabajara, além da figurinista Betinha Mânica e o diretor Márcio Bernardes.

Juntos, eles relembram outras passagens marcantes do grupo nesta primeira década de trabalho, como o espetáculo “Faixa de Graça”, que promoveu o retorno do grupo ao teatro de rua – linguagem usada por quase 15 anos no Grupo Viramundos – e a proximidade com a arte do palhaço brasileiro, além de permitir a eles trabalhar com um grande mestre da palhaçaria no Brasil: Richard Riguetti. Miraldi Junior cita também a peça “Auto da Miséria”, que estreou em 2018 e agregou ao grupo parceiros que seguem no projeto até hoje. Rontastreou em 2018 e agregou ao grupo parceiros que seguem no projeto atl: Richard Riguetti. em suas mais de 100 apresentaç- emontagem do mais conhecido espetáculo do extinto Viramundos, “O Ferreiro e a Morte”, o trabalho também oportunizou o retorno do diretor Márcio Bernardes, que também assinava a peça na trupe original. “Voltar com esse espetáculo foi muito significativo para todos”, conta.

Para o grupo, é preciso escolher a dedo os projetos a serem citados como simbólicos. Não é apenas a criação das peças, em si, que abrilhantou a primeira década de Ritornelo. Há ainda a participação em festivais, mostras, oficinas, ações culturais e premiações, que viabilizaram a circulação do repertório para além do território passo-fundense. “São encontros que nos alimentam e inspiram a continuar a luta pela cultura”, pondera Jandara Rebelatto.


Um lar para artistas independentes

Parte dos encontros, como os próprios integrantes citam, foi propiciada ainda por outra conquista marcante na história do grupo: a criação do Rito Espaço Coletivo, no ano de 2016. Instalado na Rua Aníbal Bilhar, em um pavilhão carinhosamente colorido por pôsteres, guarda-chuvas e figurinos, o espaço é fruto de uma parceria entre o Grupo Ritornelo de Teatro e a Fundação Lucas Araújo. Apesar de ter sido cedido para servir de casa e espaço de ensaio do coletivo, em troca de trabalhos prestados por eles à fundação, não é somente a eles que o Rito abriga.

Desde que abriu as portas, o Rito Espaço Coletivo tem servido de reduto para artistas independentes da região e, mais ainda, permite que a população tenha contato com diferentes manifestações culturais pagando pouco (às vezes, nada) e sem precisar sair de Passo Fundo. “O Rito Espaço Coletivo foi um marco na nossa história, pois além de termos um espaço para nossos processos de criação e ensaio, ele proporcionou diversas ações culturais, como shows, mostras, eventos, espetáculos de teatro, tudo de forma popular e acessíveis para a comunidade”.


“Acho que construímos muito dentro de um país que pouco valoriza a cultura”

O olhar sensível para com a realidade de outros trabalhadores da cultura vem da empatia de quem, estando na estrada há tanto tempo, sabe bem as dificuldades enfrentadas por quem vive para arte. “Viver do teatro no interior sempre é muito difícil, pois os poucos editais ou patrocínios de empresas que existem, se concentram nas capitais e na região sudeste do Brasil. Além disso, as questões econômicas têm afetado diretamente nos últimos anos. Por exemplo, nos últimos cinco anos, tivemos que reduzir valores médios de cachê, sem mesmo correções de custos de materiais e insumos”, compartilham.

Dificuldades que, diante da pandemia do novo coronavírus, acabaram por complicar ainda mais a reorganização da forma de trabalho do Grupo Ritornelo. “Agora, com a pandemia, ficou complicado reorganizar a forma de trabalho. Um teatro sem ou outro, para vivência junto, é contraditório com nossa linguagem de trabalho. Acaba que questões como essa nos impossibilita de fazer nossa arte em sua plenitude e isso nos preocupa, já que estamos constantemente preocupados com o significado do nosso trabalho”.

Por outro lado, apesar do cenário pouco animador, o grupo afirma que os empecilhos não os frearam no aprofundamento da relação que possuem com a comunidade local e regional. “Independente dos editais e políticas públicas, seguimos fazendo teatro de rua e promovendo ações no nosso espaço. Acho que construímos muito dentro de um país que pouco valoriza a cultura. Tornamos o teatro acessível, levando arte e cultura para praças e bairros da cidade. Passo Fundo já chegou a ter 12 grupos de teatro. Hoje, temos quatro ou cinco, mas seguimos firme, encontrando eco na comunidade para sobreviver e resistir. Isso já é uma vitória”.


Programação de aniversário

A agenda comemorativa aos 10 anos do Grupo Ritornelo de Teatro, celebrado no dia 12 de outubro, também precisou ser adaptada à pandemia e às mudanças trazidas por ela, especialmente no que tange a relação público presente x público virtual. Além de realizar lives de espetáculos como “Faixa de Graça”, “Sumiço da consciência”, “Vida de Canela”, eles lançaram também um novo projeto, denominado “Girô TV”. Direcionado ao público infantil, o “Girô TV” é um programa no YouTube, que vai ao ar quinzenalmente no canal do grupo Ritornelo. “Além disso estamos construindo o documentário dos 10 anos, com depoimentos e histórias contando nossa trajetória”, adiantam

Gostou? Compartilhe