‘No faro das migalhas’ é o segundo livro de poesia de Márcia Barbosa

 Livro já  está sendo vendido pelo valor de R$ 38 e  pode ser adquirido no site: www.bestiario.com.br

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Gerson Lopes/ ON Gerson Lopes/ ON
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Quatro anos após o lançamento de Duas Fomes, a escritora Márcia Barbosa acaba de publicar pela Editora Bestiário (Porto Alegre) seu segundo livro no gênero poesia: no faro das migalhas. Mencionado no texto de apresentação, escrito pelo artista plástico Gaudêncio Fidelis, como uma ‘tormenta de metáforas’, a obra reúne 63 poemas divididos em duas seções. Na primeira delas, “Espectros e a palavra sangrada”, Márcia aborda temáticas do cotidiano como a morte, desigualdades sociais, racismo, entre outras. Na segunda, denominada “Quase canto”, a autora conduz o leitor para elementos como a arte, a memória e o amor. 

Márcia trabalhou como professora e pesquisadora nas áreas de Literatura Brasileira e Portuguesa por mais de três décadas, sendo 19 anos na universidade de Passo Fundo. Além da publicação de dois livros de poesia, dividiu as composições com o marido, Raul Boeira, nas canções do CD Cada qual com seu espanto, lançado em 2016. No faro das migalhas já está sendo vendido pelo valor de R$ 38 e pode ser adquirido no site: www.bestiario.com.br

 

ON -  A obra surge quatro anos após o lançamento de Duas Fomes (2017), seu primeiro livro de poemas. Em que momento você decide partir para o segundo livro do gênero? 

 

Márcia Barbosa - No início, não havia a decisão de escrever um novo livro. O fato é que eu nunca mais parei, continuei escrevendo depois da publicação de Duas fomes. No início, num ritmo mais lento, porque eu tinha menos tempo, estava dividida entre a poesia e a docência. Foi só em 2020, depois de me desligar da Universidade, que eu percebi que logo teria material para um novo livro.

 

ON -Em que período os poemas foram escritos?

Márcia Barbosa - Cerca de 70%, foram escritos em 2020. Eu comecei revisando o que tinha escrito antes e, durante esse processo de revisão, passei a escrever novos poemas num ritmo bastante intenso, tanto que, em dezembro, eu estava com tudo pronto para ser enviado à editora.

 

ON - Você decidiu dividi-lo em duas partes?

Márcia Barbosa - Quando a maior parte já estava pronta, e já era possível ter uma noção do conjunto, eu agrupei os textos por temática, identificando aquelas que eram mais recorrentes e buscando as inter-relações que existiam entre elas. Eu percebi então que o livro poderia ser dividido em duas partes, evidenciando os blocos temáticos mais amplos aos quais os poemas estão vinculados.

 

ON - Quais conteúdos trabalhados nos poemas demarcam as duas seções?

Márcia Barbosa - A primeira parte, intitulada “Espectros e a palavra sangrada”, tem um tom mais sombrio, trata da morte, do cenário político contemporâneo, das desigualdades sociais, do racismo, do machismo, dos problemas ambientais. Já segunda parte aborda os elementos que nos ajudam a sobreviver, que nos levam ao espanto e ao deleite, que provocam um alumbramento e nos permitem respirar durante o caos e a barbárie que estamos vivendo: a arte, as memórias da infância, o amor, as surpresas da paisagem que delira diante dos nossos olhos e também os pequenos prazeres cotidianos.

 

ON - A expressão “no faro das migalhas” não chega a ser o título de um poema, no entanto, dá nome ao livro. Qual a relevância dela no contexto da obra?

 

Márcia Barbosa - Quando eu dividi o volume em duas partes e, logo depois, quando organizei os poemas em sequência, vi que essa expressão, utilizada no todo ou em parte em dois poemas, “Véspera” e “Supervivos”, era a que melhor expressava o tom do livro, o eixo que atravessava a coletânea de ponta a ponta. Nesse volume, sou eu, e somos nós, farejando as migalhas, juntando os cacos, num momento sombrio, de pouca visibilidade, de espera e de expectativa, durante o qual precisamos nos apoiar em tudo o que aprendemos, em todas as experiências que tivemos e, também, na nossa imaginação, para seguirmos vivendo, para desejarmos continuar. A imagem da capa também expressa isso, também capta o tom do livro: a luz débil e esquiva, avistada com dificuldade, mas ainda acesa, ainda viva. É preciso farejar o que existe para além das sombras, aquilo que existe perto ou longe de nós e aquilo que espera ser criado.

 

 

ON - A obra foi produzida durante o período em que o mundo atravessa uma pandemia provocada pelo novo coronavírus. Qual o impacto que essa realidade teve na produção da obra? 

Márcia Barbosa - Como eu poderia ficar alheia ou não temer, ou não me deixar abater pelas notícias sobre o contágio e os óbitos, pelas modificações que isso trouxe à nossa rotina, pelas inúmeras perdas que tivemos, de conhecidos e de amigos, e também pela sensação de desamparo que sentimos? Alguns poemas (“Outra vez o fim do mundo”, “Gota a gota”, “Materialização”) abordam essa questão de forma direta. E outros tratam de fatos que ocorrem simultaneamente à pandemia e que tornam essa realidade ainda mais pesada, tais como as queimadas no Pantanal, a devastação da Amazônia, o crescimento da violência contra a mulheres e os abomináveis casos de agressão motivados por racismo. Esses dois aspectos que eu citei por último deram origem, respectivamente, a “Eu vi uma mulher morta” e “A marca”.

 

 

 ON-  Qual o papel da poesia e da arte em um momento como este?

Márcia Barbosa - A poesia e a arte não têm um papel a cumprir que lhes seja “natural”, ou que lhes possa ser atribuído pelas sociedades sejam elas quais forem, porque nenhuma das duas “serve para algo”. Elas não estão situadas no campo da utilidade. Mas ambas podem provocar efeitos que são fundamentais, sobretudo hoje, quando somos todos mais exigidos em diversos sentidos e precisamos ressignificar a nossa vida e o nosso estar-no-mundo. Pensando nesses efeitos, eu diria que a poesia pode ser reveladora no que se refere ao mundo em que vivemos e que pensamos conhecer, e aos mundos que imaginamos ou desejamos, como também ao próprio ser humano, na medida em que ela nos põe em contato com sentimentos, sensações, pensamentos que nos parecem estranhos, ainda que estejam em nós. Esses efeitos variam de um leitor para outro ou de uma leitura para outra. De certo modo, as epígrafes que eu escolhi para a abertura de cada uma das seções do livro falam disso, desses efeitos que a arte e a poesia provocam, que são efeitos que eu desejo que o meu livro produza nos seus leitores. Eu espero que os poemas, quando se expressam como louvor ou protesto, como gozo dor, falem com e para os leitores, e os levem, em alguma medida, a sentirem-se escutados.

 

ON- De onde vêm os poemas? Como é o seu processo de criação?

Márcia Barbosa - A ideia para um poema pode vir de uma notícia, de uma foto, de um filme, de uma conversa, de uma cena vista na rua, de uma paisagem, de uma lembrança, da leitura de outro poema... A faísca tem origem em estímulos variados. O fato de me interessar ou me sentir provocada por algum tema nunca é motivo suficiente para que eu escreva sobre ele. Eu só começo a escrever quando aquele tema adquire concretude e surge para mim como sensação, em geral na forma de uma imagem. Se eu não tiver uma imagem, o texto que vai resultar do meu interesse não será um poema; será um texto de opinião ou o mero registro de um fato, por exemplo, mas não um poema. Eu já sei disso, então, não tomo o caminho errado, nem forço o poema a ir para o papel antes que ele se faça presente como uma aparição. Depois disso, eu escrevo em qualquer lugar, em casa, dentro de um ônibus, numa fila de banco ou de consultório, sozinha ou cercada de gente, em silêncio ou em meio ao barulho, com ou sem interrupções, em geral usando caneta e papel, às vezes o celular. E, por fim, passo para o computador e reviso o poema várias vezes. Aí sim preciso de silêncio e concentração.

 

ON - Como foi o processo de criação de um poema com tamanha potência como “A marca”?

Márcia Barbosa - “A marca” nasceu de uma cena que me provocou profunda revolta: a de George Floyd sendo agredido por um policial nos EUA. E enquanto eu via a notícia, outra imagem se sobrepôs àquela. Lembrei de um conto do Machado de Assis do qual eu gosto muito e sobre o qual já publiquei uma análise, intitulado “Pai contra mãe”. No trecho inicial, que eu sei quase de cor, o narrador diz “A escravidão levou consigo certos ofícios, certos aparelhos [...]. Um deles era o ferro ao pescoço [...]. Há meio século, os escravos fugiam com frequência”. Essas duas imagens (o ferro no pescoço no século 19 e o joelho no pescoço no século 21) ficaram fixadas no meu pensamento. Na manhã seguinte, vieram os primeiros versos do poema ainda sem nome: “Ferro ao pescoço, caçador de escravos / era uma vez / diz a história que me contaram / diz a história que um dia eu li. / Lá não é como aqui / naquelas páginas vê-se o passado / morto e enterrado”. E aí foi o verso de um poema de Camões que soou na minha memória: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. E eu segui o poema assim: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / e as instituições / diz a história. / E respiro aliviada / porque era uma vez. / A escravidão levou consigo / certos ofícios, certos aparelhos. / Mas o que faz um pescoço debaixo do joelho de um policial? / Imobilizado, deitado no asfalto, / é sempre o mesmo réu / e o passado redivivo em rede nacional”. Na sequência, de forma irônica, contrario o que diz Machado de Assis; perseguição, discriminação e maus-tratos aos negros continuam. Lamentavelmente, não era uma vez! Os tempos, as vontades e as instituições não mudam como deveriam para algumas parcelas da população. E é por isso que o poema termina com uma interpelação aos leitores: “Alguém aqui consegue respirar?”. Esse poema nasceu dessas imagens, dessa reflexão, desse misto de compaixão e indignação. Cada poema tem um estímulo, algo que acende a faísca...

 

A cópia

 

A lente produz a cópia distorcida

que escorre para fora da moldura.

A imagem refletida se aproxima

pé ante pé 

e ataca o original

aquele que na superfície curva se procura.

Espelho impróprio e adverso

parecia inofensiva a criatura

um reflexo tão fiel à sua vítima...

até que ousou expropriá-la

esvaziou-a, roubou-lhe a carcaça

e tomou o seu lugar.

Às cerimônias comparece a cópia

para ser venerada

é o parasita fantasiado de pátria

sugando o país real.

A encenação levada ao palco é uma reprise

mas oportunistas e crédulos se exaltam

eis aí o milagre nacional

o progresso surgindo feito miragem

das cores da bandeira

do hino entoado com ardor

da mão levada ao peito.

Sorrateiro o parasita se instala em outro corpo

morre à míngua o hospedeiro

água, plantas, bichos, gentes, terra e ar.

É o país real em agonia

território ocupado

faminto

devastado

exangue

sufocado

oferecido em sacrifício para garantir

[a salvação dos negócios

o lucro imediato

enquanto oportunistas e crédulos

solenemente

idolatram a imagem distorcida

a pátria imaterial.

 

 

 Gota a gota

 

O planeta afogado em cifras

mortes aos milhões chegam com o jornal

e algumas, avulsas, individuais

às vezes íntimas

num telefonema

inundam nossos olhos

flagelam nossos dias.

As cinzas distribuídas no varejo

com nome, digital, fisionomia

são o obituário incontornável

ostensivo

que atrasa o almoço

suspende a rotina

tornando-a entrecortada

eivada de soluços

inativa.

As mortes somadas

expostas no atacado

entortam o quadro, deslocam as figuras

mas em ações habituais

cenas domésticas

programas paroquiais

a agonia em parte se dispersa

diluída na água que lava a louça

ocupa as mãos e a pia

enxaguando as horas

assim recompostas

assim reconduzidas aos trilhos

alheias e frias.

A rotina resiste às mortes coaguladas

[em números

gráficos e estatísticas congelam a incessante

[hemorragia.

As mortes vertidas gota a gota é que

[se destacam da tormenta

liberam o sangue estancado e rompem

[as comportas,

distribuídas no varejo

elas inundam a pia, as casas, os dias

as retinas.

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