Falta de chuva preocupa produtores de trigo

Segundo especialista, tempo seco pode acarretar em perdas na produtividade do grão

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Passo Fundo tem mais de 90 mil hectares de área plantada do grãoPasso Fundo tem mais de 90 mil hectares de área plantada do grão
Passo Fundo tem mais de 90 mil hectares de área plantada do grão
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A escassez de chuvas tem sido motivo de preocupação para os produtores de trigo. Na região de Passo Fundo, os mais de 90 mil hectares de área plantada do grão, que vinham apresentando excelente desenvolvimento vegetativo durante o mês de julho, agora sofrem com as imprevisibilidades do tempo. Isto porque a cultura encontra-se em fase de perfilhamento, momento em que condições adequadas de umidade do solo seriam fundamentais para uma melhor produtividade. No entanto, a região vem sofrendo com índices de chuva significativamente abaixo da média histórica.

De acordo com o engenheiro agrônomo e gerente regional da Emater, Oriberto Adami, embora ainda seja cedo para observar grandes perdas nas lavouras, o cenário pode se agravar caso o tempo firme e seco persista no decorrer dos próximos dias. “Estamos com um déficit hídrico preocupante. A única chuva que tivemos foi há mais ou menos dez dias e ficou em torno de 15mm, o que é muito insuficiente. Conseguimos apenas fazer a adubação nitrogenada do trigo, mas na fase atual, de perfilhamento, a falta de chuva está causando um desenvolvimento muito abaixo do esperado. Teria que chover pelo menos 20 ou 30 milímetros nos próximos dias, porque aí a lavoura estaria bonita, se desenvolveria bem, mas infelizmente as previsões são pessimistas”, explica.

Para a frustração dos triticultores, a probabilidade é de que a projeção climatológica nada favorável, mencionada pelo engenheiro agrônomo, seja de fato confirmada nos próximos dias. Segundo o analista do laboratório de agrometerologia da Embrapa Trigo, Aldemir Pasinato, não há qualquer sinal de precipitação nesta semana. “Nós estamos sofrendo com um calor muito atípico para o período, causado por uma massa de ar quente e seco vinda da Amazônia. Devemos ter dias com temperaturas máximas acima dos 30ºC até, pelo menos, o início da próxima semana. Provavelmente, por volta da quarta-feira, teremos uma nova frente fria. Mas até lá, ainda não há nenhuma previsão de chuva”, explica.

O analista também cita que, até o momento, o município registrou apenas 28,2mm de chuva durante o mês de agosto, enquanto a média histórica para todo o mês é de 188mm. O índice é parecido com o observado em julho, quando a chuva não passou dos 35mm, muito abaixo da média histórica de 162mm. “Isso ainda é um reflexo do fenômeno La Niña, que está perdendo a intensidade, mas ainda continua influenciando o clima e resultando em chuvas abaixo da média”.

Tempo seco pode frustrar projeções de safra recorde

Dados preliminares da produção, colheita e área do trigo foram motivo de pauta entre representantes do setor produtivo, financeiro, industrial, das cooperativas, da área de pesquisa e dos governos estadual e federal, em uma reunião virtual da Câmara Setorial do Trigo, na última terça-feira (17). As entidades ainda acreditam em uma previsão de safra recorde no Rio Grande do Sul, conforme projetado pela Emater há mais de um mês, mas não negam a preocupação com a falta de chuvas nas regiões Noroeste e das Missões.

A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (FARSUL) acredita que a área plantada com trigo deve chegar a 1.150 mil hectares com uma colheita de 3 milhões e meio de toneladas. Segundo o presidente da Câmara Nacional das Culturas de Inverno do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Hamilton Jardim, “ainda é cedo para os números definitivos. Mas o cenário positivo e a expectativa dos produtores é grande, levando a estes números”.

Já a EMATER tem a estimativa de uma área plantada de 1.100 mil hectares, com uma produtividade que pode ficar acima de 3.000 kg/ha. “As intempéries, principalmente a geada, causaram estragos pontuais em algumas lavouras. E nós temos relatos de baixo desenvolvimento na região das Missões por causa da estiagem. Mas como existem diferenças entre as regiões, até o momento a nossa expectativa é de que a safra seja favorável”, avalia Elder Dal Prá, da gerência técnica da EMATER/RS.

O representante da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), Carlos Bestetti, acredita que a área deve ficar em torno de 1.145 mil ha, com uma produtividade de 3.302 kg/ha e uma produção total de 3.781 mil toneladas. Mas, segundo ele, existe uma preocupação com o fator climático nas regiões Noroeste e Missões. “A planta está sentindo muito a falta de umidade nestas regiões, já tem trigo morrendo e as previsões climáticas não são animadoras, não tem chuva prevista. E o trigo precisa de umidade no período de florescimento”, diz Bestetti.

O assessor de agronegócio do Banco do Brasil, Edgar Erhart, relata que os meses de junho e julho foram bons para a cultura do trigo. Mas que agosto chegou com chuvas dispersas e que no Noroeste gaúcho já existem bolsões de seca, com níveis de umidade muito baixos. “As plantas não estão conseguindo desenvolver o seu potencial. Estamos em situação de alerta”, afirma Edgar.

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