A falta de limites na sociedade hipermedicalizada

Por
· 2 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?

Tamires Decimo

 

Uma das demandas mais preocupantes percebidas em escolas e em consultórios é a respeito da falta de limites das crianças. Pode-se pensar que a falta de limites está ligada a falhas importantes na constituição do aparelho psíquico daquele ser. Muitas crianças são diagnosticadas, cada vez mais cedo, com “déficit de atenção” ou “hiperatividade” e que, na verdade, muitas vezes esses comportamentos agitados são descargas de um excesso de excitação que a criança pode não estar conseguindo dar conta dentro do seu psiquismo.

Não é raro encontrar no histórico vivencial dessas crianças e no discurso dos pais um fato que chama atenção: comumente essas crianças agitadas eram aqueles bebês ditos ‘chorões’, que não se acalmavam de forma alguma e/ou tinham dificuldades para dormir. O choro mobiliza a angústia dos pais, estes cada vez mais ocupados com sua vida profissional, ausentes em suas funções, pois apenas a presença física não constitui psiquismo. Diante do choro e da angústia, muitas mães acabam por encontrar uma única saída para acalmar o bebê: a amamentação. Quando a mãe oferece o seio, ela não está oferecendo puramente o leite, ela oferece algo a mais, um plus de prazer que deixa uma marca, instaurando o desejo através da falta, ou seja, quando o bebê chorar novamente, ele pode estar sentindo a fome, mas também estará desejando esse algo a mais que recebeu da mãe. Esta, por sua vez, oferece esse plus sem se dar conta, mas que, ao mesmo tempo, é constitutivo. Porém, se cada vez que o bebê chorar, a mãe oferecer o seio/leite como única forma de acalmá-lo, ela não vai estar possibilitando ao bebê a ajuda necessária para traduzir e ligar o que ele possa estar sentindo e que, nem sempre é fome. Quando a mãe ouve seu bebê e o ajuda a nomear o que ele sente, ela vai abrindo caminho para constituir um sistema de ligações que futuramente a criança fará uso para entender o que se passa dentro de si mesma. Esse sistema de ligações é o que possibilita a organização dos limites internos do ser humano. Caso contrário, a criança fica inundada com uma dupla indigestão que precisa ser escoada de alguma forma. O leite pode ser escoado através de vômitos e diarreias, mas e esse plus introduzido juntamente com o leite e que coloca o aparelho psíquico em movimento?

Excesso e excitação

Em seguida, as crianças entram na escola extremamente agitadas por conta do excesso vivido na relação mãe-bebê, sem possibilidade de acalmar essa excitação. A criança pode não conseguir se alfabetizar nem fazer uso dos seus recursos cognitivos por estar tomada de excitação sem possibilidade de escoamento. Isso significa que pode ter havido uma falha da função materna para ajudar a organizar os limites internos daquela criança, fazendo com que, cada vez mais, se recorra à limites externos como, as medicações, por exemplo.

A criança cresce e, por não ter tido ajuda para constituir os limites internos, chega à adolescência com um turbilhão de sentimentos desordenados que se somam a outros conflitos e, possivelmente, procurará no externo algo para (tentar) dar conta do interno como as drogas. Vive-se numa sociedade onde cada vez mais a vida e os afetos são medicalizados, silenciando o sujeito psíquico que, sem recursos simbólicos para poder pensar ou desejar e sem poder contar consigo mesmo, necessita cada vez mais, de contenção externa.

* Tamires Passos Decimo é psicóloga clínica de orientação analítica

Gostou? Compartilhe